Dias de luto

Fracasso da quarentena em SP é uma prova de déficit em termos de relacionamento entre o Estado e os cidadãos.

Marco Aurélio Nogueira

20 de maio de 2020 | 15h20

Tenho me esforçado bastante para entender as críticas feitas à Prefeitura de SP e ao governo do estado pela decisão de antecipar alguns feriados.

Elas oscilam entre o deboche pretensamente irônico e a resistência em nome do “preciso trabalhar” e consumir. Há também quem sustente que a medida é um tiro no escuro, pois incentiva a que as pessoas viajem para fora da cidade e carreguem o vírus consigo.

Há uma boa dose de egoísmo e oportunismo nas críticas. Quem não gosta de Bruno Covas e Dória está deitando e rolando. Os bolsonaristas uivam de raiva. Os sabichões de plantão mostram uma sabedoria superficial e se derramam em observações que nada agregam em termos práticos.

O fato é que a epidemia saiu do controle em SP. Foi o que reconheceu Dimas Covas, coordenador do Centro de Contingência em São Paulo: “Estamos perdendo a batalha contra o vírus, essa é a realidade. Os dias que se seguem não são dias de feriado. São dias de luto”.

Dória fez um apelo para que os paulistanos não viajem nem saiam de casa durante os feriados. A ideia, que vem sendo martelada desde março, é reduzir a pressão sobre o sistema de saúde. Caso não funcione, o “lockdown” será inevitável, e será duro. “Será que vamos precisar ver pessoas mortas nas ruas e calçadas?”, perguntou.

Ao mesmo tempo, o governador requisitou leitos e UTIs dos hospitais privados para os pacientes da Covid-19. As unidades públicas já saturaram. O colapso do sistema é dado como certo.

Na cidade de São Paulo, as mortes se avolumam. Idem no estado, que já conta mais de 5,2 mil óbitos. Eles continuam a crescer, dramaticamente.

É duro constatar que a população ou não tem como aceitar a quarentena, ou simplesmente a ignora e a boicota. É uma prova do déficit que temos em termos de relacionamento entre o Estado e os cidadãos. Os governantes falam e os governados vão em outra direção. Falta algo, vocês não acham? Não é só comunicação política. Mas representatividade, desejo de independência, individualização, desorganização política, cegueira cívica. Coisas demais.

Não deveríamos relativizar, nem ironizar. Brincadeira tem hora. Solidariedade também. Oponham-se a Dória e a Bruno Covas, mas tentem compreender o que se tenta fazer. Pode ser que nada dê certo. E aí iremos enterrar nossos mortos carregando a culpa por não termos tentado.

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