Diário do confinamento 1 – Reaprender

Difícil será voltar a viver presencialmente com a mesma intensidade de antes

Marco Aurélio Nogueira

13 de abril de 2020 | 10h22

Isolamento, distanciamento, quarentena. As palavras flutuam, como pluma ao vento, ao gosto. Briga-se por elas. Distanciar? Como assim, num país em que a distância social já é em si mesmo brutal, obscena? Há muros que isolam brasileiros uns dos outros, os pobres e miseráveis separados dos demais.

A diretriz é evitar contatos e aglomerações. Ficar em casa, circular o menos possível. Confinamento, mais que isolamento. Hibernação forçada.

Situação que nos faz prezar a própria companhia, conviver consigo mesmo, visitar os demônios internos. Rememorar. Ruminar. Ter medo, preocupação.

Descobrir prazeres que estavam diluídos, recuperar filmes antigos, ouvir velhas e novas canções, chorar diante de fotos esmaecidas, tropeçar naqueles livros de que se esquecera, limpar gavetas e estantes. Descartar. Reorganizar. Reviver.

Aprender coisas novas, melhorar seus conhecimentos e habilidades, uma língua ou um artesanato, por exemplo. Desenhar, pintar, cozinhar. Cuidar da casa. Redecorar.

Dar-se conta da inutilidade de certas coisas. Passar roupa, um supérfluo rotundo, retumbante. A limpeza obsessiva, exagerada. O uso de notas e moedas. As idas diárias ao mercado, às caixas bancárias eletrônicas ou à farmácia. O delivery resolve tudo. Saudades das praças e ruas, das visitas, dos cafés no bar da esquina, dos almoços em família.

Valorizam-se outras tantas. Pensar nas amizades, saber dos amigos. Curtir filhos e netos de modo não presencial. Amar de longe. Respeitar a ciência e seus pesquisadores. Confiar.

O confinamento acelerou processos que estavam em curso. O mergulho no mundo digital, os encontros virtuais, as calls conference, as aulas a distância, os memes, as conversas telegráficas, o home office, a velocidade, a profusão de imagens e informações. Tudo isso entrou de vez na corrente sanguínea, passou a plasmar o DNA humano. Será difícil que se volte a viver presencialmente com a mesma intensidade de antes.

Teremos uma overdose de vida digital. De que maneira sairemos, com qual bagagem? Poderemos melhorar a maneira de utilizar as tecnologias, percebermos o mal que fazem as fake news, a circulação emotiva, imediata, não refletida, de notícias que recebemos e repassamos sem pensar duas vezes. Decodificar os boatos, deletá-los. Limpar a área.

Por mais que os teóricos da conspiração digam, não há responsáveis pela disseminação do vírus. A culpa não é de alguém, não é nossa, da Humanidade perdida ou da globalização. É o efeito colateral do tráfego humano pelo planeta, incessante e crescente desde a saída das cavernas. Decorrência, também, da incúria onipotente, da falta de higiene, da miséria produzida, da exploração desenfreada, da irresponsabilidade, dos deslocamentos desnecessários, da movimentação frenética.

Boas doses de idealismo e de altruísmo não nos farão mal. Podemos sair da crise em melhores condições. O importante é sobreviver, preservar o sistema de saúde e a capacidade dos hospitais, driblar o fluxo contínuo de informações contraditórias, com seus ecos paranoicos. Manter ativa a perspectiva de que lá fora, no exterior de nossos casulos, pulsa uma vida que haveremos de recuperar. Afinal, tudo muda, e com grande rapidez. Como uma onda: “Nada do que foi será/De novo do jeito que já foi um dia/Tudo passa, tudo sempre passará”.

O confinamento está a mostrar a cara feia do mundo, as iniquidades sociais, a ruindade dos governantes, a ausência de bússolas. O egoísmo e a generosidade. Está também a evidenciar que viver é mesmo perigoso e que precisamos nos dedicar a aprender sempre mais, a adquirir sensibilidade e empatia, a pensar no coletivo. Reaprender, quem sabe até mesmo começar de novo.

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