Diálogos e gestos simbólicos mostram que há espaço para convergências

Marco Aurélio Nogueira

06 de fevereiro de 2017 | 19h10

Diálogo de alto nível na página 2 do Estadão de domingo 05/02. Não foi intencional, nem programado, mas parecia ter sido, pelo tanto que revelou de possibilidades.

De um lado FHC, de outro o sociólogo Luiz Werneck Vianna.

O ex-presidente argumenta que existem “razões para sonhar” desde que não cruzemos os braços e desanimemos. As dificuldades são grandes, mas há como enfrentá-las e vencê-las. Há avanços acontecendo, algumas ilusões perniciosas estão se desfazendo, anuncia-se uma convergência consistente em direção à sensatez. Não se trata de otimismo, mas de dar o devido peso a fatos e tendências que se afirmam.

Werneck, por sua vez, vê como ainda difícil o caminho para 2018, ano em que se comemorará o trigésimo aniversário da Constituição de 1988 e será eleito um novo presidente da República.  Nele, teremos “um encontro marcado com o destino, e não se deve chegar a ele de mãos vazias”. O sociólogo se vale do filósofo Giorgio Agamben para sustentar que “liberdade (livre-arbítrio) e servidão (necessidade) se esfumam uma na outra”.

Fiel às suas concepções, Werneck saúda o retorno ao palco do “ator político”, único polo com capacidade para contrastar o “protagonismo dos fatos”, sob o qual temos vivido e que nada mais é que a supremacia da necessidade sobre o livre-arbítrio.  Este retorno pode ser antevisto na articulação dos vértices do Executivo e do Judiciário em busca de soluções institucionais para as pequenas e grandes crises que se sucedem.

Ambos os artigos se entrecruzam e conversam entre si. Não são “palacianos”, nem foram escritos para aplaudir o que quer que seja. Ajudam a que se reflita sobre o momento atual, sugerindo um critério para organizar o debate público. Mostram que 2017 não se anuncia como tragédia: com um pouco de boa vontade e empenho, o ano pode se traduzir em conquista e retomada. A estrada para que se avance em termos democráticos e sociais está aberta, pronta para ser ocupada, ainda que necessite de uma dose adicional de esforço, generosidade e desprendimento.

O ponto de partida, o suposto e a hipótese que aproximam os textos é que estão todos interessados na superação dos bloqueios materiais, estruturais e mentais que atrasam e paralisam o País. Querem, também, a eliminação das falhas e dos equívocos governamentais, a correção das imperfeições do sistema político e melhoria da qualidade da democracia.

O “protagonismo dos fatos” não se desfez. Permanece a impor sua tirania, porque essa é a marca da época presente. Por isso, esta percepção geral de que o quadro está fora de controle, sem rumo claro.  Como afirma Werneck Vianna, “o ator como que se retirou da cena e, sem partidos e lideranças políticas que se façam ouvir, os debates migraram para a balbúrdia das redes sociais, que se têm mostrado impermeáveis ao diálogo, empenhadas em lutas de guerrilha estéreis em que a expressão de opiniões mais se apresenta como manifestações narcísicas do que tentativas de busca da persuasão”.

Se o diálogo crescer, se gestos simbólicos de solidariedade e respeito recíproco, como os de FHC e Michel Temer por ocasião do velório de Dona Marisa Letícia, puderem ser impulsionados, ganharem corpo nas redes e além delas, o futuro poderá voltar a estar ao alcance das mãos.

O problema, como sempre, é que os arranjos políticos prevalecentes não ajudam. Na mesma semana em que o governo Temer comemorava algumas melhorias tópicas na economia, a dissolução da tensão que ameaçava contaminar o STF e as vitórias de Eunício Oliveira e Rodrigo Maia no Senado e na Câmara, reafirmando sua disposição de ser um “governo reformista”, o País assistia boquiaberto à nomeação de Moreira Franco como ministro, com a nítida intenção de lhe facultar foro privilegiado. E, agora, prende a respiração com a indicação de Alexandre de Moraes para o STF, de todos os nomes disponíveis seguramente o mais controvertido.

Com tais gestos infelizes, o governo mostra que pode até se mover por reformas, mas sua preocupação principal é com os efeitos possíveis da Lava Jato. O reformismo por ele proclamado terá de ser provado pelos fatos, não pela retórica, que tradicionalmente tem servido para ocultar interesses de tipo bem oligárquico.

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