Depois das urnas, o amanhã

Depois das urnas, o amanhã

A partir de janeiro de 2019, um novo ciclo se iniciará e quem não souber a ele se adequar não sobreviverá como protagonista.

Marco Aurélio Nogueira

29 de outubro de 2018 | 16h10

Proclamado o novo presidente, está aberta a temporada de avaliações e reposicionamentos.

É hora de guardar as ferramentas de ataque, moderar a paixão com a razão. Ler os resultados. O País precisa se reencontrar consigo mesmo, compreender o que ocorreu, quem ganhou de fato, quem perdeu em maior ou menor dose, que recados deram os eleitores, quais fatores determinaram o andamento do processo eleitoral.

A direita venceu. Pelas urnas, conforme as regras do jogo e a Constituição. Não foi uma lavada, mas foi marcante, algo a que não estávamos acostumados.

É hora de reduzir o estresse. A sociedade se machucou muito com a disputa eleitoral. Foi intensamente pressionada pelos dois polos que chegaram ao segundo turno. Assustou-se, manifestou medo e preocupação, pôs para fora dúvidas e preocupações. Mas também extravasou esperanças e expectativas. Agora é o momento de baixar o fogo, reencontrar a tolerância e a gentileza,que se perderam durante a guerra.

Os números são eloquentes. 60 milhões de brasileiras elegeram Bolsonaro, 45 milhões ficaram com Haddad e outros tantos se abstiveram, votaram nulo ou branco. É o retrato de um País dividido, até mesmo em termos geográficos.

Na área vermelha, o Nordeste, a paleta de cores é grande, misturando diversas tonalidades e motivações, ideologia e agradecimento, ao lado do apoio ao trabalho de prefeitos e governadores.

Do lado vencedor, também não há um único tom. Muitos de seus votos vieram da rejeição do PT e da esquerda, outros foram embalados pelo desejo de mudança, somente parte do total pode ser vista como “bolsonariana”.

O novo presidente não recebeu um cheque em branco, não governará com céu de brigadeiro. Terá diante de si uma sociedade fraturada, com setores radicalizados e sangue nos olhos, que precisarão ser “pacificados” e incluídos no jogo político regular.

Bolsonaro não deixou claro, até agora, qual mapa o orientará. Anunciou generalidades e princípios vagos, mas nem por isso pouco importantes: prometeu defender a democracia e a Constituição, o respeito aos direitos, à liberdade e à propriedade. Anunciou um país de todos e para todos. Falou muito em liberdade, mas não em igualdade. Referiu-se bastante a Deus e à verdade bíblica, mas não enfatizou o caráter laico do Estado e a necessidade de manter separadas a política e a religião.

Tudo isso terá de ser processado.

No curto prazo, porém, decisões precisarão ser tomadas. Terminada a campanha, o candidato irá endossar a faixa presidencial, manto que deverá “reeducá-lo” e prepará-lo para governar, quando não mais será suficiente a agitação permanente.

Será a parte mais difícil, aquela na qual todos os atores reconfiguram seus roteiros de atuação, suas narrativas, suas chaves cognitivas. A partir de janeiro de 2019, um novo ciclo se iniciará e quem não souber a ele se adequar – o vencedor e os que perderam – não sobreviverá como protagonista.

A adequação não poderá ser passiva e conformista. Nem será conseguida sem um vigoroso esforço de reinvenção, de uma criação que precisa brotar da imaginação.

Para a oposição, o momento será de definições. Para a esquerda em particular: se não se renovar, se não souber pensar o novo mundo que se descortina, terá reduzida operacionalidade, não chegará onde o povo está, não vencerá nenhuma batalha de ideias.

Haverá quem se oriente pela perspectiva da “resistência”, que em tese leva ao encolhimento defensivo e reativo. E haverá quem busque uma estrada de renovação e reorganização, de sintonia com os novos termos do jogo e com as tendências estruturais da época histórica. Uma oposição “negativa” irá medir forças com uma oposição “construtiva”, que morda e assopre, apoie e critique, abra áreas de diálogo e convivência, disponha-se a recompor a sociedade e a lhe oferecer uma nova agenda.

Se é verdade que o PT sai das urnas fortalecido, não há como ignorar que o terreno da democracia não se subsumiu a ele. Mostrou ser bem mais amplo e diversificado. Tornou-se um terreno categoricamente “sem dono”, pronto para ser organizado.  A essa altura, não dá para saber qual será sua expressão organizada. Os partidos precisarão se reposicionar e voltar a respirar. Alguns talvez não consigam fazer isso, desaparecerão ou ficarão à margem.

Caso emblemático é o do PSDB, hoje uma pálida sombra do que já foi. Pedaços da “alma” tucana poderão migrar para novos arranjos, juntamente com pedaços de outras agregações. Daí poderá nascer uma nova força democrática radical, ou socialista moderada, que dispute o campo democrático com partidos que mantiveram suas posições, ou mesmo as ampliaram, como o PSB e o PDT, e faça frente às pretensões hegemônicas do PT.

O modo como o PT se reposicionará decidirá muita coisa. Prevalecendo em seu interior aquilo que se organizou no segundo turno em torno de Haddad – de perfil conciliador e reformista –, a trajetória será uma, podendo até mesmo convergir para uma eventual força unitária social-democrática. Se a burocracia partidária vencer a luta interna e permanecer ativada pela conduta errática de Gleisi Hoffmann, o PT tenderá a retomar uma trajetória “fundamentalista” na qual o “Lula livre” condicionará a agenda partidária.

Poderemos ter um cenário de horror, caso o novo governo mantenha o discurso justiceiro e reacionário que, encarnado na figura do Presidente, deixe em estado de medo e torpor a população.

Não dá para dizer que isso acontecerá.

Mas dá para admitir que será um tempo difícil e desafiador para a democracia. Paradoxalmente, um tempo excelente para que olhemos no espelho e tentemos nos compreender melhor.

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