Denúncia contra Serra complica o que já está difícil

Ação da Lava Jato respingará nos tucanos, no PSDB, no centro democrático que se deseja ativar.

Marco Aurélio Nogueira

03 de julho de 2020 | 17h04

A notícia de que a operação Lava-Jato denunciou o senador José Serra por lavagem de dinheiro, com a PF cumprindo mandado de busca contra o ex-governador, produziu um abalo sísmico na política nacional. Deixou tucanos e democratas boquiabertos, temerosos dos desdobramentos e efeitos que o caso terá.

Segundo o Ministério Público Federal, a Odebrecht fez a Serra pagamentos indevidos por meio de contas no exterior. A filha do senador também foi denunciada.

A denúncia é por lavagem de dinheiro. Agentes federais fizeram buscas na casa do senador e apreenderam pen-drives, HDs e computadores.

Em nota, a assessoria de Serra disse que a operação “causa estranheza e indignação”. A busca e a apreensão foram feitas “com base em fatos antigos e prescritos e após denúncia já feita, o que comprova falta de urgência e de lastro probatório da Acusação. […] Serra reforça a licitude dos seus atos e a integridade que sempre permeou sua vida pública. Ele mantém sua confiança na Justiça brasileira, esperando que os fatos sejam esclarecidos e as arbitrariedades cometidas devidamente apuradas”.

Com longa e meritória carreira pública (foi deputado, ministro, governador, prefeito, senador), Serra é um economista brilhante. Foi um grande ministro da Saúde, fato reconhecido por todos. Não é o caso de resgatar sua biografia, que remonta à UNE e à resistência à ditadura de 1964. Seu papel na redemocratização e no que a ela se seguiu ao longo dos anos, até chegar aos dias presentes, é de uma importância enorme. A vida política brasileira seria outra, muito pior, sem a atuação de Serra e de pessoas como ele.

Fundador do PSDB, o senador tem sido uma das aves de mais alta plumagem no partido. Uma voz sempre ouvida. Tem andado retraído nos últimos anos, sobretudo desde a ascensão de João Dória ao comando tucano, mas é sempre uma referência quando se trata de medir a temperatura no território do partido.

A denúncia que o atinge agora vem de antes, período 2006-2014. Já circulou muito, quase sempre ligada ao ex-diretor da DERSA Paulo Vieira de Souza (o Paulo Preto) e a transações realizadas entre órgãos da administração pública paulista e empreiteiras. Independentemente de vir a ser desmentida e ultrapassada, a denúncia deixa uma mácula difícil de ser apagada. Respingará em Serra, nos tucanos, no PSDB, no centro democrático que sempre se deseja ativar. O efeito simbólico tende a ser corrosivo.

O fato em si, no momento em que vem a público, não autoriza o julgamento público de Serra. É preciso esperar, ver precisamente do que se trata. Ver, também, o que está por trás do pano, nos bastidores, na lógica dos atores. Houve quem atribuiu a operação, nos moldes em que foi feita, à necessidade que a Lava-Jato tem de sair das cordas, encurralada que está pelo governo Bolsonaro. Não dá para cravar que tenha sido isso, mas chama atenção o momento em que a denúncia está sendo apresentada, passados tantos anos do acontecido. A demora tento pode ser um novo despertar da Lava-Jato quanto uma manifestação da força das alianças construídas pelo PSDB ao longo do tempo, que teriam blindado o partido.

Seja como for, há que se ter cuidado se põe um político da estatura de Serra no olho do furacão. Os justiceiros de plantão, com seus investigadores, sempre marcarão presença, soltando fumaça. Deu-se o mesmo com Lula. O importante é deixar que a justiça trabalhe e seja fiscalizada, de modo a que aja com eficácia e imparcialidade.

O que dá para dizer é que a situação política nacional, que já está difícil, fica um pouco mais confusa e complicada com a ida de Serra para a berlinda.

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