Deixar sangrar: o risco

O perigo que nos ameaça vem da falta de governança, do atrito artificial criado entre alas, pessoas e autoridades

Marco Aurélio Nogueira

28 de abril de 2020 | 12h43

Depois que Rodrigo Maia, presidente da Câmara, disse em entrevista que questões como CPIs ou impeachment “têm que ser olhadas com muita cautela” porque aumentarão as incertezas sobre a economia e deslocarão o foco do coronavírus, muito concluíram que uma boa ideia é deixar o presidente “sangrar”.

Por que antecipar as coisas? Com quais forças e ideias, com qual plano estratégico? São perguntas difíceis, decisivas, dramáticas. Ninguém as está respondendo.

Há algumas variantes nessa situação. Existem os que pensam que o presidente não é o principal problema do País, mas sim o neoliberalismo de Paulo Guedes, ponta de lança da desmontagem da indústria nacional e da limagem atroz dos trabalhadores. Há também os que acham melhor ter um presidente fraco, pois ele chegará fraco às próximas eleições e será mais facilmente derrotado nas urnas. Há os militares que hoje dominam o Planalto e acreditam ter condições de controlar o presidente. Há os políticos, que temem ser ultrapassados pelos fatos que derivariam de uma renúncia forçada.

São conjeturas que integram cálculos discutíveis e se sustentam em preceitos mais doutrinários do que propriamente políticos.

Consideremos o perigo neoliberal. O suposto é que ele tem força e conta com o apoio ativo do presidente da Câmara, dos empresários, da classe média cansada do Estado e até das FFAA. Mas o neoliberalismo não está em declínio no mundo, não é uma pauta superada, não ficou ainda mais fragilizado com a pandemia? Ele sobreviveria no Brasil só porque há uma gama de interesses localizados que torce por ele por falta de opção melhor?

Acontece que o fiador do neoliberalismo de Paulo Guedes é o presidente. Isso foi dito com todas as letras ontem, na porta do Palácio. O ministro não tem divergências com os militares e está mais forte do que nunca, disse Bolsonaro, garantindo que Guedes é “o homem que decide a economia no Brasil. Ele nos dá o norte, nos dá recomendações e o que nós realmente devemos seguir”. O ministro poderá ser substituído por algum outro “neoliberal” de plantão se o presidente assim o quiser. A ideia permanecerá.

Donde uma conclusão: só será possível questionar o neoliberalismo na economia se não houver Bolsonaro. Enquanto ele se mantiver, será esse o programa econômico. Até porque o bloco presidencial não tem outra opção, não sabe o que propor de diferente.

O problema, portanto, precisa ser tratado como um todo. O perigo que nos ameaça vem da falta de governança, do atrito artificial criado entre alas, pessoas e autoridades, da exasperação provocativa com que se atua durante uma pandemia extremamente grave, da falta de atenção, apoio e empatia com a população, da desinformação que só faz crescer. A guerra cultural e política posta em prática pelo bolsonarismo é um problema, talvez o principal problema do País, porque tudo a tem como parâmetro e é ela que organiza a correlação de forças. Não é o neoliberalismo, por mais que ele seja de alguma ajuda.

As cartas estão sendo embaralhadas. O jogo precisa avançar.

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