Debate em São Paulo mostra candidatos sem liderança

Debate em São Paulo mostra candidatos sem liderança

A intenção foi lançar iscas para fisgar eleitores, trocando a consistência por presumidas facilidades.

Marco Aurélio Nogueira

02 de outubro de 2020 | 13h08

O debate da Band com os candidatos a prefeito de SP, realizado na terça-feira 01/10 tarde da noite, mostrou um dado preocupante, quase assustador: a miséria intelectual e técnica dos quadros políticos atuais.

Foi um festival de jargões e clichês. Onze candidatos, para começo de conversa, é um passo para que não haja debate, especialmente quando se adota um formato inadequado: 30 segundo para perguntar, 60 segundo para responder. É um engessamento que em tese iguala os postulantes, mas que os impede de argumentar com calma e apresentar propostas concatenadas.

Qualquer um pode imaginar que solução apresentaria, em um minuto, para melhorar o transporte público em São Paulo. Não é razoável que se espere algo além de generalidades.

Os candidatos falaram com a intenção de lançar iscas para fisgar os eleitores. Trocaram a consistência por presumidas facilidades.

O debate com isso não fluiu. A preocupação foi mais atacar e agitar do que esclarecer. Os estigmas correram soltos. Bateu-se na esquerda, nos comunistas, na corrupção, na gestão atual. Todos defenderam mulheres, crianças, pequenos empresários, emprego, renda, sustentabilidade. Palavras, palavras soltas, sem nexo.

A canastrice e a hipocrisia prevaleceram. Somente eu conheço as pessoas carentes, ando mesmo pela cidade, farei a diferença na Prefeitura. Logo nos primeiros dias, assim que eleito, darei início a uma revolução administrativa. A arrogância personalista deu o tom. E a maioria mal conseguiu esconder frustrações, ressentimentos e apetites desmesurados.

Inevitável que Celso Russomano e Bruno Covas tenham sido alvo dos demais.

Russomano porque agiu como um robô mal programado, daqueles que travam o tempo todo e repete fórmulas prontas, gastas e enferrujadas, como se fossem pepitas de ouro. Parecia enguiçado, anestesiado. Fez questão de reiterar, cinicamente, a amizade com Bolsonaro, querendo assim capturar o que se imagina ser o curral bolsonarista paulistano. Chegou ao desplante de dizer que o presidente lhe pediu para “cuidar do povo carente de SP”, prometendo apoio para a criação de uma “ajuda emergencial” municipal.

E o que falar de Andrea Matarazzo? Ou Jilmar Tatto? Ou Boulos? Todos revoltados, indignados, engessados, postiços, rebarbativos. Felipe Sabará teve a coragem de fazer o elogio do Novo, partido que deseja impedi-lo de ser candidato. Marina Helou, nervosa ao extremo, parecia ter decorado algumas frases do programa da Rede. Arthur do Val até que mandou bem, naquele estilo soldado da periferia que fala o que pensa. Joyce Hasselman tentou explicar o inexplicável: continua a admirar Bolsonaro, mas não aceita a interferência dos filhos 01, 02 e 03. Orlando Silva suava demais e se conformou com o segundo plano.

Bruno Covas recebeu críticas da direita e da esquerda simplesmente porque é o prefeito atual, telhado de vidro. Esteve tranquilo e sereno, revelando conhecer bem a cidade e ter ganhado experiência em termos de gestão municipal. Não deixou pergunta sem resposta, o que fez alguma diferença. Foi bem também Marcio França, ainda que insistindo sem cabimento em atacar Covas, despreocupado de formar uma trincheira contra o mal maior.

Para além dos dois, foi uma pasmaceira. A verdade dói, mas precisa ser admitida: estamos muito mal servidos de candidatos.

 

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