De eleições, protestos e capitulações

Marco Aurélio Nogueira

13 de setembro de 2016 | 19h26

Higienização radical

Dia 2 de outubro está logo aí.  Mas você anda por São Paulo e não vê campanha. Já faz um mês que ela começou, e a cidade não parece ainda ter sido afetada. Há uma higienização política desagradável e inconveniente, um silêncio que chega a ferir, um desinteresse acentuado. Ruim para a democracia. Parte disso resulta da legislação, que há anos vem tentando “disciplinar” as campanhas. Agora, fecharam-se as torneiras do financiamento fácil, não se pode pendurar propaganda em postes, paradas de ônibus ou árvores. Faixas, cavaletes e bonecos também estão proibidos. Menos dinheiro, menos propaganda e provavelmente menos informação para o cidadão, especialmente aquele mais passivo ou desprovido de meios de acesso à internet. A cidadania ativa pode contar com as redes sociais, agir para conhecer melhor os candidatos. Os passivos ficam à espera de que algum santinho lhes chegue às mãos ou de que algum conhecido forneça uma dica.

Outra parte do problema, porém, vem dos candidatos. Os partidos sumiram. Os candidatos se individualizaram, numa personalização extrema que reflete bem o quadro em que se vive. Haddad esconde seu partido ou só o mostra com discrição, de olho no apoio dos que protestam. Erundina era até ontem do PSB e seus eleitores pouco se importam em saber qual é seu partido atual. Marta, por sua vez, saiu outro dia do PT mas ninguém sabe bem para onde foi ou porque foi para o PMDB. Russomano nem partido tem, ao passo que Dória carrega consigo um partido de quadros sem apelo de massa e rachado de cima a baixo. Nenhum deles conseguiu se adaptar com sucesso às novas regras do jogo.

Quanto aos candidatos a vereador, é melhor nem lembrar. Giram em torno de nichos. Muitos falam para si próprios, ou seja, com ninguém. Os melhores dentre eles buscam se destacar, romper os limites em que nasceram. São obrigados a amassar barro com as próprias mãos, sem descanso.


Capitulação ativa

Devemos acreditar na sinceridade dos muitos que dizem estar havendo um retrocesso político grave no país, devidamente acompanhado de uma “escalada repressiva” contra os que se manifestam e protestam. É uma sinceridade profunda, de natureza emotiva, praticamente imune a questionamentos ou a análises serenas da situação. O convencimento passional de alguns, somado à narrativa justificatória de outros, travam a discussão e contagiam o entorno, impulsionando um efeito bola de neve de grande apelo mobilizador. De repente, se você não é contra os governos ou não protesta, você passa a ser estigmatizado, terminando por se sentir como um peixe fora d’água. Adere a eles para não ficar por fora, ainda que também faça isso por convicção e pela sensação de urgência de que é preciso fazer algo.

Poucos se dão ao trabalho de olhar nos olhos do real e vislumbrar as dificuldades objetivas, de tipo estrutural. Tudo parece transcorrer na dimensão da subjetividade: troquemos os governantes e tudo voltará a ser como antes, quando éramos felizes e não sabíamos. Tudo estaria definido de antemão: sendo o governo quem é, com os políticos que o integram e sustentam, já estaria claro que seu objetivo é a “demolição da Constituição” e o “sucateamento dos direitos fundamentais, o que será possível graças ao apoio que lhe dá o “oligopólio da mídia”. Em sendo assim, pouco ou nenhum espaço haveria para a política a não ser a luta das ruas. É uma espécie de capitulação ativa, indiferente a erros, correlações de força e condições de possibilidade.

Não é que as pessoas estejam querendo espernear sem critério. Elas estão convencidas de suas próprias razões. Indignam-se de verdade. Querem lutar e participar.

O problema é que os fatos não caminham na mesma direção e só dão respaldo à indignação quando são manipulados e selecionados. O que faz com que os gritos de protesto fiquem como que parados no ar.

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