Conversas complicadas

Huck foi apressado em procurar Moro, por mais que tenha caminhado na direção certa

Marco Aurélio Nogueira

09 de novembro de 2020 | 14h09

A noticiada conversa entre Luciano Huck e Sergio Moro causou alvoroço nos ambientes democráticos, mais à esquerda ou menos. Seria estranho se não fosse assim. Ainda estamos imersos em uma dinâmica de atritos e competição, com muitos cálculos apressados e muito personalismo. Os diálogos fluem com dificuldade e sempre provocam reações de insatisfação.

O campo democrático brasileiro é um vir-a-ser: não existe como tal, pronto para agir.

O movimento de Huck foi equivocado, apressado. Mas mirou na direção certa.

Huck é um dos poucos que têm se mostrado afinado com o diálogo plural. Não se sabe bem se pretende mesmo ser candidato a alguma coisa ou se sua pretensão é contribuir para que se superem as polarizações improdutivas e a falta de iniciativas. Sua movimentação deveria ser aplaudida, tem muito mais virtudes do que defeitos, é um recurso interessante para levar a política para o meio da população, indo além de partidos e lideranças já conhecidas. Tem algo de sangue novo nele, o que não é desprezível numa país em que a política envelheceu.

O problema é que Huck não pode conversar com “todos”, pois há inúmeros vetos cruzados postos na mesa. Se você é de esquerda e conversa com alguém de direita, é imediatamente taxado de “centro-direitista”. Se um moderado procura um extremado, é visto como !vacilante” ou oportunista. Um esquerdista não consegue admitir que exista vida inteligente do outro lado. E assim por diante. É expressão do infantilismo político brasileiro.

Muita gente odeia quem é de “centro”, expressão que deveria sempre significar apreço pela moderação e disposição ao diálogo com todos. Há um estigma contra o centro, um estigma que vem acompanhado de boas doses de sectarismo, má vontade e arrogância. Direitistas furibundos e esquerdistas ideológicos tratam o centro como algo a ser evitado. O sonho deles é que os extremos se enfrentem numa batalha definitiva, quem sabe sangrenta.

Só que sem o “centro” não se consegue dar nenhum passo efetivo à frente.

Moro é uma figura complicada, por mais admiradores que tenha e por maior que tenha sido seu papel na luta contra a corrupção. Já era assim antes, mas a adesão a Bolsonaro reforçou a imagem negativa que sobre ele se tem. Um oportunista, um jacobinista antipolítica, um reacionário? Tem sido alcançado por inúmeras acusações e muitos vetos.

Moro não foi digerido pelo campo democrático, coisa que depende muito mais dele mesmo, ainda que não só. Enquanto continuar assim, permanecerá um personagem tóxico, que cria tensão e reabre feridas que não cicatrizaram. Promover o diálogo público com ele, como fez Huck, é pedir para ser criticado.

O problema é que em política sempre há um timing a ser considerado. Moro pode ajudar a que se forme uma forte e arejada união democrática? Seus admiradores o seguirão politicamente? Ele pode rever certas opções, reformular suas matrizes discursivas e se comprometer com uma iniciativa oposicionista?

Se se admitir qualquer dessas hipóteses – e não há porque não admiti-las –, será preciso acertar o relógio. Se a demora for excessiva, sua contribuição poderá ficar perdida no espaço, com Moro sendo arrastado pelos piores componentes de seu próprio movimento,  hegemonizado por um ativismo judicial mal compreendido.

O melhor jeito de desarmar a mola regressista do “morismo” é buscando comprometer Moro com a democracia. Se, feito o esforço, nada de novo surgir, que cada um siga seu caminho.

Huck tem agido na direção certa: reunir as correntes democráticas (liberais, conservadores, socialistas, social-democratas, ambientalistas, comunistas pragmáticos) para criar pontes entre elas e fomentar a elaboração de um programa comum consistente. É o que importa nele, todo o resto é bobagem, em especial a ideia de que “fala pela Globo” e é candidato à Presidência.

Precisamente por isso, Huck não pode errar na dose, sob pena de matar o paciente.

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