Conversar é preciso, mas o decisivo é promover o diálogo democrático

Marco Aurélio Nogueira

28 de julho de 2015 | 20h29

Alguém deveria ajudar Lula a encontrar um eixo. O ex-presidente anda oscilando demais. Nos últimos dias, por exemplo, a imprensa especulou que ele está procurando formas de se encontrar com FHC para uma conversa de alto nível. Ao mesmo tempo, soltou o verbo num evento no Sindicato dos Bancários do ABC, sexta-feira à noite, quando disse que “está de saco cheio” e “cansado das mentiras e safadezas” contra Dilma, que sofre uma campanha da oposição que “parece os nazistas criminalizando o povo judeu”, entre “tantas outras perseguições”.

Com a fala no ABC, Lula detonou e provocou os democratas e as oposições. Não fez questão de estabelecer diferenciações, nem muito menos de pacificar os espíritos. Pôs todos no mesmo saco da “elite perversa” que não se conforma com as conquistas sociais dos últimos anos. Acha que há muitas pessoas “que se diziam democráticas e que não aceitaram até agora o resultado de uma eleição que elegeu uma mulher”.

Entre a vontade de se encontrar com FHC e a arenga de sexta à noite, o contraste é enorme. O que leva a que se pondere que a primeira não passa de decisão tomada num momento de desespero e que Lula simplesmente não tem clareza de que estrada seguir.

Quem quer que queira fazer avançar o diálogo democrático pode, claro, buscar o caminho do encontro de personalidades. Acontece que este seria somente um primeiro passo, e certamente não o mais importante. Na melhor das hipóteses, funcionaria como gesto simbólico. Se for um encontro clandestino, a portas fechadas, será pouco democrático. Se for público, encherá as manchetes e, depois de uns dias, desaparecerá. Só terá importância se for acompanhado de outras iniciativas.

Um diálogo democrático não se resume a conversas bem-educadas entre ex-presidentes. Dizem que esta prática é usual nos EUA e em outros países. Não é estranha ao Brasil, mas por aqui nunca passou de ato protocolar. O fato é que nem sempre os presidentes são os principais articuladores, ou os melhores dentre eles, especialmente quando estão no poder ou são candidatos às próximas eleições, fato que lhe tira a isenção necessária.

Além do mais, conversar sobre o quê? Sobre democracia, que não está correndo risco de vida? Para salvar o mandato de Dilma, que não está nem sequer fazendo bem a sua própria parte? Para pedir paz às oposições? Para celebrar a reaproximação socialdemocrática entre PT e PSDB? Melhorar o clima político do País? Ou a ideia é produzir combustível para aumentar a governabilidade e a governança?

Como escrevi no artigo que publiquei sábado passado no Estadão (“Sobre crises, golpes e saídas”), seria interessante que os democratas se articulassem melhor, entre si, para isolar o que há de conservadorismo no País, escantear os retrógrados e impulsionar a própria democracia. Nada disso tem a ver com apoio a governos ou disputas eleitorais. Seria uma operação ético-política, cultural.

Um diálogo autêntico precisa envolver muitas pessoas, quem sabe a multidão, organizações da sociedade civil, partidos e movimentos. Disseminar-se de modo firme. Pouco adianta os caciques se encontrarem enquanto os índios insistem em bater boca e se agredir mutuamente. Diálogo precisa de gente disposta a dialogar. Necessita de objetivos comuns, propósitos elevados, interlocutores generosos e iniciativas. Tudo isso falta entre nós.

A verdade é que não temos uma cultura democrática suficientemente sedimentada na política nacional. Tivemos bastante disso durante os anos da redemocratização, mas aos poucos fomos perdendo. Pedaços existem, evidentemente, e eles bem que poderiam começar a se manifestar. Se vigorarem, certamente começarão a produzir insumos para que as pessoas voltem a pensar democraticamente e saiam das polarizações grosseiras em que têm vivido nos últimos anos.

Lula e FHC poderiam dar um exemplo e conclamar seus admiradores a recolher as armas e pararem de se ofender. Isso ajudaria bem mais do que uma conversa entre eles.

O sapo que está hoje enterrado na vida brasileira não é somente o das dificuldades e da impopularidade de Dilma, ainda que estas coisas existam e pesem. A questão é mais o imobilismo das forças democráticas e do sistema político: as primeiras parecem paralisadas pela polarização suicida entre PT e PSDB e o sistema político ficou congelado pela operação Lava-Jato, que o ameaça com uma denúncia por dia.

Se as forças democráticas conseguirem escapar da situação maníaco-depressiva em que se encontram, poderão viabilizar uma espécie de “acordo” que recupere o sistema político e o faça acordar. É difícil, mas não impossível. Seria uma oportunidade para lavar de fato o sistema de suas partes mais podres e problemáticas. Dado, porém, que esse acordo não poderia significar o refreamento da operação Lava-Jato (ao contrário, teria de incentivá-la a ir até o fim), ele poderá esbarrar precisamente na resistência de partidos e parlamentares, temerosos do avanço de uma investigação que os fará sangrar.

A saída, portanto, teria de contar com a adesão de uma sociedade civil encharcada de cultura cívica e politicidade democrática. Isso, porém, não existe. Com o que ficamos a girar em círculos, à procura de algo ou alguém que abra uma porta para o futuro.

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