Conservadorismo e renovação política

A renovação que veio com a onda conservadora foi uma dança das cadeiras: a elite política trocou de pele e circulou. Ela não pode, porém, ser desprezada,

Marco Aurélio Nogueira

09 Outubro 2018 | 17h02

Um dos mais interessantes resultados das urnas de 2018 é que a onda conservadora que varreu o país veio junto com uma onda de renovação política.

Aumentou o número de mulheres e jovens em Assembleias e no Congresso Nacional, surgiram novas modalidades de representação mais coletivas e abertas (como as bancadas ativistas), pequenos partidos como o Novo aumentaram substancialmente sua presença na Câmara e no Senado, diferentes ideias de como atuar politicamente circularam com mais força, afirmou-se largamente o desejo de uma governança afastada da corrupção e dos expedientes retóricos.

Um vento de renovação modulou o vendaval conservador.

Mas é preciso qualificar melhor isso. Não se tratou de uma renovação no sentido rigoroso da expressão: foi mais um grito de repúdio ao sistema vigente do que a manifestação clara de adesão positiva a um novo pacto social, a uma nova institucionalidade ou a um projeto nacional. As próprias campanhas não contribuíram: fecharam-se na defesa de posições exacerbadas desenhadas para persuadir os eleitores a rejeitar os adversários, não a referendar um programa de ação. A polarização Bolsonaro x Haddad, que terminou por prevalecer e contaminar a disputa, bloqueou qualquer discussão substantiva.

Metade dos candidatos que despejaram milhões em suas campanhas não foi eleita, mostrando que a força do dinheiro precisa ser equilibrada com base social e boa estrutura de campanha. Mesmo assim, 241 políticos (47% dos 513 eleitos) declararam ter patrimônio superior a R$ 1 milhão, número praticamente idêntico ao da última legislatura. São parlamentares do PSD (24), do MDB (22), do PP (21), do PT (18) e do DEM (17). PSDB, PSL, PR e PDT têm 16 cada um.

A renovação que veio com a onda conservadora, portanto, diz mais respeito à superfície de uma agenda nacional: foi uma espécie de escolha cosmética, que promoverá uma alteração nos lugares políticos e em seus ocupantes, mas dificilmente representará um passo à frente, seja quem for o próximo Presidente.

As duas bancadas mais fortes – PT e PSL – foram impulsionadas pelos candidatos que polarizaram a disputa presidencial.  Os novos parlamentares foram eleitos por votos expressivamente associados a credos evangélicos, militares, policiais, ruralistas. Alguns são filhos de políticos tradicionais e outros são “celebridades”. Esse agregado, que gira em torno de 300 parlamentares, tenderá a patrocinar pautas mais conservadoras, próximas da complicada agenda dos costumes, o que prolongará a tensão social e a polarização. Se isso vier acompanhado de agressividade e provocações, dá para imaginar o que acontecerá.

As bancadas mais à esquerda somarão cerca de 130 deputados, suficiente para fazer barulho e bloquear algumas deliberações, mas insuficiente para paralisar o governo. Dada a força do vendaval conservador, porém, os parlamentares de esquerda poderão desempenhar um papel importantíssima, sobretudo se agirem em sintonia com o campo democrático e liberal.

Tudo evidentemente dependerá do que vier a ser proposto e da qualidade da mediação política que vigorará a partir de janeiro.

Houve uma purgação do sistema. Algumas cabeças coroadas da velha política foram decepadas sem dó: Romero Jucá, Eunício Oliveira, Roseana Sarney, Valdir Raupp, Beto Richa, Cassio Cunha Lima, entre outros. A foice não perdoou nem sequer senadores ativos e progressistas como Cristóvam Buarque e Roberto Requião, vetou a volta de Eduardo Suplicy e a ida de Dilma Rousseff ao Senado, nesse último caso pondo por terra a tese de que o “golpe” do impeachment seria refutado pela sociedade.

A renovação alcançada foi acima de tudo uma dança das cadeiras: a elite política trocou de pele e circulou.

Ela não pode, porém, ser desprezada, para o bem e para o mal. Impossível saber o que farão os novos parlamentares e com qual qualidade política.  Muito depende de quem for o próximo Presidente e da margem de votos que obtiver. Nunca será demais lembrar que tanto Bolsonaro quanto Haddad carregam índices altíssimos de rejeição, expressão de uma grave crise de representatividade. As fortalezas que os protegeram no primeiro turno — o antipetismo e o lulismo — terão de ser expostas a partir de agora.

Os novos parlamentares poderão fazer algum contraponto a eventuais excessos do Poder Executivo e facilitar o questionamento de certos elementos necrosados do sistema político. Mas poderão, também, funcionar como correia de transmissão do futuro Presidente, problematizando os mandatos que receberam da sociedade. Na próxima legislatura, haverá 10 partidos com bancadas de cerca de 35 deputados em média, e mais outros 19 partidos com micro-bancadas entre 1 e 13 deputados. Com tal fragmentação, os congressistas poderão dificultar e precificar a negociação com o Executivo, reproduzindo o toma-lá-dá-cá que vários deles criticaram.

Tudo será mais custoso e difícil.