Comunicação é coisa séria, e está em falta na política

Marco Aurélio Nogueira

21 de setembro de 2016 | 14h51

“Media training” resolve falhas graves de comunicação? Pode melhorar muita coisa, claro, mas não serve para tudo. Há casos em que não funciona ou tem resultados inexpressivos.

Se um ministro, por exemplo, não tem densidade técnica, experiência e legitimidade para falar dos problemas de sua área, se tropeça nas palavras, se tem uma visão tacanha do mundo, se está devorado pelo provincianismo, é exibicionista e se acha o rei da cocada preta, nada há para ser feito a não ser mandar o cara de volta para a escola e convencê-lo de que o ministério é muito para ele. Se um político se deixa fotografar, todo pimpão e sorridente, em situações constrangedoras, não são sessões de treinamento que irão curá-lo. O mesmo pode ser dito do deputado ou senador que tem a língua solta, seja para destilar arengas intermináveis e repetitivas só pelo prazer de ouvir a própria voz, seja para deixar “escapar” a última fofoca palaciana só para se mostrar bem informado.

Política séria é coisa para gente de têmpera especial, com boa formação e domínio das linguagens (a oral, a escrita, a cênica e performática). Falta tudo isso entre nós.

Comunicar-se bem não é algo banal. Em política, está vinculado à possibilidade de ingressar no terreno do diálogo entre governantes e governados, do debate público democrático e das lutas por hegemonia, nos espaços simbólicos que movem e orientam as pessoas. Não é coisa para técnicos, mas para políticos e cidadãos.

Não é por acaso que entre políticos e cidadãos o quadro é de incomunicabilidade: uma parte não entende a outra, não ouve a outra e não fala com a outra. A falta de qualidade discursiva é enorme, o gestual é pobre, a mensagem é repetitiva e banal.

A miséria da nossa comunicação política só faz crescer. Aparece no atual governo e em todos os anteriores, com uma ou outra exceção. Toda a nossa classe política, de qualquer credo ou vertente ideológica, de direita, centro ou esquerda, é bisonha neste quesito. É uma desgraça associada tanto às falhas da formação escolar, quanto a certas marcas da brasilidade, da cultura brasileira, com seu gosto pelo improviso, pelo coloquial, pela intimidade, pela indiferença diante do cultivo da linguagem e da língua. A situação só tem piorado, nesses tempos em que falar bem e escrever bem passaram a ser vistas como manifestação de “elitismo” ou como coisa pouco importante.

Em entrevista recente à revista Istoé, Fernando Henrique Cardoso foi direto na jugular: “Está faltando no Brasil uma voz. A política precisa de palavra, quem fale. O verbo”. Ele se referia aos silêncios preocupantes do governo Temer, à falta de uma liderança que fale pelo governo e faça com que as coisas andem. Temer não tem estilo e envergadura para isso. Seus ministros, menos ainda, com o agravante de vários serem despreparados para as nobres funções que deveriam exercer. Durante os anos Dilma, passou-se algo parecido. Deu no que deu. A preocupação de FHC, portanto, faz sentido.

É um problema da política em sentido estrito (do sistema), mas não só. Reapresenta-se na política em sentido ampliado (na polis). Ouçamos a voz das ruas ou dos movimentos. Invariavelmente tosca, sem vocação hegemônica, sem pegada cultural, sem uma “filosofia” consistente. Nas redes, a tragédia argumentativa é completa, aumentada pela intolerância e pela dificuldade de assimilar e respeitar os argumentos alheios. A sociedade civil, que muitos entendem ser a referência democrática principal, fala muito, mas fala mal: conjuga precariamente o verbo e não passa mensagens que mobilizem e eduquem a cidadania.

O problema se repete até mesmo onde deveria jamais aparecer: nas escolas e universidades, da graduação ao doutoramento. Em suma, se a comunicação acadêmica e científica, assim como a linguagem miserável que senta em nossas salas de aula, têm livre curso entre nós, é porque a situação chegou a um ponto delicadíssimo.

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