Coisas para pensar numa sexta-feira com chuvas e trovoadas

Marco Aurélio Nogueira

11 de março de 2016 | 16h54

1. O pedido de prisão preventiva de Lula encaminhado pelo MPSP é tão estapafúrdio que deixou no ar uma pergunta candente: por que o fizeram, sabedores que são da fraqueza argumentativa e da falta de respaldo jurídico da justificativa? O argumento de que Lula representa um “perigo contra a ordem pública” chega a ser ofensivo à inteligência. Atribui a Lula uma força e um poder que ele não tem. E pressupõe intenções que ele nunca demonstrou ter.

2. Alguns dizem que foi para dificultar a aceitação de um ministério por Lula, que nele se escudaria para fugir dos desdobramentos das investigações em nome do foro privilegiado. Se tiver sido isso, foi uma medida equivocada para responder antecipadamente a uma decisão insana: se Lula virar ministro, enfiará os pés pelas mãos e poderá arrastar consigo o que resta do governo Dilma, além de sujar sua própria biografia política.

3. Também é razoável que se entenda o pedido como resultado de uma briga de egos que pode estar se infiltrando na Lava-Jato. Pode estar, ninguém sabe se está ou não. Sugeri isso num artigo, ontem, acrescentando que temos de nos perguntar se a sociedade e o mundo político estão dispostos a fornecer oxigênio para a operação continuar e ir até seu limite lógico, que exigirá investigações que estejam além do PT. O Estado democrático exige e merece isso. Merece e exige, também, que as coisas sejam esclarecidas e explicadas sem subterfúgios. Por todos. Afinal, todos são parte da crise, uns mais, outros menos. Todos são culpados por terem rebaixado à política a briga de botequim, por não terem sabido fazer o sistema representativo funcionar de forma produtiva, por não terem conseguido compor bons governos, enfrentar os poderosos e revitalizar a democracia. Todos, uns mais e outros menos.

4. O pedido não ajuda: prejudica a todos, na medida em que injeta mais um componente artificial nas disputas políticas que amarram o país. Ainda que muitos pensem isso, não ajuda nem sequer a mobilizar gente para as manifestações do dia 13. Pode mesmo atrapalhá-las, ou esvaziando-as ou incentivando choques entre grupos adversários, ou as duas coisas juntas.

5. Não dá para endeusar ninguém. Lula não é santo e não é um coitadinho perseguido pelos ricos, assim como Sergio Moro não é um herói. Ninguém é “guerreiro do povo brasileiro”. Não precisamos disso. Já passamos deste ponto. É hora de reduzir as taxas de passionalidade e passar a olhar as coisas como elas são, em toda a sua feiura. Sem ilusões descabidas, ainda que com alguma esperança.

6. Manifestações contra e a favor são sempre boas para a democracia. Péssimo, porém, se os que são contra e a favor se hostilizarem reciprocamente, valendo-se de argumentos irracionais e de agressividade verbal, coisas que podem facilmente descambar para o confronto físico. Não precisamos de vítimas ou cadáveres. Que cada um vá para as ruas ciente de sua condição cívica, de sua importância para a democracia e do respeito que merecem todos os que pensam de modo diferente.

7. Não teremos somente manifestações no final de semana. O PMDB faz convenção no sábado. A fumaça que de lá sair emitirá muitos sinais do que virá pela frente.

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