Ciro, Lula e as esquerdas

Ciro, Lula e as esquerdas

Eventual união das esquerdas não é suficiente para agregar o campo democrático

Marco Aurélio Nogueira

30 de outubro de 2020 | 12h04

Bastou a notícia de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro Ciro Gomes se encontraram em setembro e fizeram as pazes para que voltasse à cena a ideia de que uma convergência de esquerda abrirá caminho para a derrota de Bolsonaro em 2022.

A notícia somente foi divulgada agora porque Lula temia uma repercussão negativa na base petista envolvida nas eleições municipais, que tem sido implacável com Ciro. Há um clima de ressentimento e ódio que ainda não se dissipou, rescaldo das desavenças que se acumularam desde 2018, quando ambos protagonizaram uma disputa eleitoral que deixou marcas, especialmente depois que Ciro se recusou a apoiar publicamente Fernando Haddad, candidato petista.

Bom sinal de que há muitas arestas para aparar foi dado pela sempre atrapalhada Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, que condicionou a reaproximação a um pedido público de desculpas do pedetista ao PT. “Lula é um homem generoso, de coração grande. Mas eu, particularmente, penso que qualquer aproximação com Ciro Gomes passa por um pedido público de desculpas dele ao Lula e ao PT, pelo que ele disse, principalmente ao Lula”. Gleisi achou por bem batizar o encontro com o sangue da vingança.

A iniciativa do encontro partiu do governador do Ceará, Camilo Santana, que é petista e aliado da família Ferreira Gomes no estado. Há calculo no movimento do governador petista, que tem defendido um pacto de não agressão no Ceará, onde PDT e PT são adversários na disputa pela Prefeitura de Fortaleza, pela qual travam uma batalha com componentes deletérios.

É melhor, portanto, ir com calma nesse território.

As esquerdas e o campo democrático

Primeiro porque já foram feitas muitas promessas de união das esquerdas, e todas fracassaram. As esquerdas são mais diferençadas do que se pensa. Estão impregnadas de arrogância, personalismo e de uma ideia torta de hegemonia: cada uma delas se julga em melhores condições de falar pelo todo ou de dar o tom. São vorazes nas narrativas que constroem para si mesmas, línguas afiadas, hostis à moderação. Tropeçam em táticas e estratégias cavilosas, cheias de referências e malandragens, que pouco chegam a beneficiá-las.

Segundo porque uma eventual frente das esquerdas, na política brasileira realmente existente, é insuficiente para ativar uma força democrática que se oponha de fato ao bolsonarismo. Os democratas formam um campo político muito mais vasto e plural, que, se não for devidamente unificado, tornará a disputa com Bolsonaro muito mais espinhosa. Além disso, somente este campo democrático ampliado pode dar sustentação a um programa reformador que desenhe, ao menos em parte, um efetivo projeto nacional, uma voz plural que articule e unifique as demandas, seduza o eleitorado e dê forma a um consenso que direcione os governos.

Sem o centro liberal-democrático, a união das esquerdas será um bonito gesto político, mas não terá pouco efeito e não promoverá a agregação do campo democrático. Foi assim em 2018, está sendo assim nas municipais de 2020, poderá continuar assim em 2022.

Ciro tem se mostrado disposto a dialogar com o que está mais ao centro, mas ainda é prisioneiro de suas pretensões pessoais e de sua retórica inflamada, que muitas vezes o faz flutuar entre extremos. Tem falado em favor do impeachment de Bolsonaro e em proteger a democracia. Mas seu foco principal é a busca de “alternativas de mudanças ao modelo econômico para reverter a maior crise socioeconômica da história brasileira e proteger o patrimônio nacional contra a entrega corrupta a barões locais e potências estrangeiras”.

O passo decisivo, que já deveria estar sendo dado desde já, é muito maior do que a promoção do diálogo entre as esquerdas. Não há nem sequer uma noção consistente do que são as esquerdas, quem as integra, o que as define e as identifica. Como não há ideias claras, substantivas, tudo se resolve na louvação de lideranças com algum apelo popular que, bem feitas contas, já sofrem o efeito do tempo e da fadiga de material, e talvez não consigam mais estourar a boca do balão.

Há um déficit assustador de lideranças no Brasil. Falta-nos o material que define o grande líder: firmeza de princípios, clareza de propostas, humildade e generosidade. Os que circulam entre nós jamais aceitaram, por exemplo, ocupar uma segunda posição ou desistir de uma postulação.  Suas pretensões atravessam as décadas, sem deslocamentos.

Enquanto não se falar abertamente disso, tudo será jogo de cena.

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