Chute forte, mas sem convicção

Chute forte, mas sem convicção

Ministro da Saúde mostra que, sob seu comando, não há como se ter esperança

Marco Aurélio Nogueira

12 de fevereiro de 2021 | 12h01

Foto Peia S. Dias

Não há como interpretar de outro modo a declaração do ministro Pazuello, feita ontem no Senado, de que 50% dos brasileiros maiores de 18 anos serão vacinados no primeiro semestre e a outra metade até o fim de 2021.

O ministro mentiu. Para usar expressão mais amena, chutou forte e para cima, dobrou a meta, sem qualquer convicção. Até os senadores governistas ficaram boquiabertos.

Já o senador Rodrigo Pacheco foi aos repórteres para dizer que “precisa acreditar que as palavras de Pazuello são um compromisso”, que será monitorado pelo Congresso Nacional.

O presidente do Senado flutuou. Endossou Pazuello, e por extensão o governo, mas também entregou a cabeça do ministro da Saúde numa bandeja dourada para o júri popular e a opinião pública. Uma no cravo, outra na ferradura.

O caso não seria importante se não estivéssemos em plena pandemia, com mortes em crescente. No ambiente atual, ele só demonstra como estamos mal parados, ainda que se proclamem movimentos a torto e a direito. Logo na manhã seguinte à fala do ministro, os jornais noticiavam que o País só tem estoque para mais oito dias de vacinação. Algum tantinho poderá aparecer na próxima semana, mas não há informações sobre negociações e compras.

Pazuello tenta mostrar força, mas está a cada dia mais frágil. Não tem competência técnica para gerir um ministério complexo como o da Saúde e muito menos para enfrentar a crise sanitária. Já está investigado por omissão na tragédia de Manaus e com uma ameaça de CPI no cangote. A cada dia mostra que, sob seu comando, não há como se ter esperança. Quem viver verá.

Enquanto o ministro resfolega e retarda o passo, o ambiente geral vai assistindo à busca sôfrega de protagonismo que, como se sabe, acaba quase sempre levando a que se vá com sede excessiva ao pote. Nada que possa ajudar à democracia e ao encontro de saídas para o enrosco em que nos metemos.

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