Cenário congelado, mas nem tanto

Haddad e Bolsonaro tem agora um duplo desafio: atrair o eleitorado de centro e assimilar as demais candidaturas

Marco Aurélio Nogueira

25 de setembro de 2018 | 11h55

A nova rodada do Ibope mostra que o quadro eleitoral, ainda que permaneça congelado, apresenta duas importantes inflexões: Bolsonaro estacionou em 28% e viu a distância para Haddad se reduzir, com o candidato petista crescendo três pontos e chegando a 22%. Dados os ataques que o ex-capitão vem sofrendo dos adversários, a pesquisa indica que continua a se beneficiar do antipetismo e da sensação de que representa uma garantia adicional de “ordem e autoridade”. Apesar disso, seu índice de rejeição passou de 42% para 46% em uma semana, e nas simulações de segundo turno ele agora perde para todos os demais adversários. Sinal de que pode ter batido no teto.

Haddad, ao contrário, continua a capitalizar o efeito Lula e a capilaridade do PT, atraindo os lulistas mais fieis e o voto de eleitores não petistas que não podem admitir a vitória da extrema-direita. A pesquisa não simulou um segundo turno entre o candidato petista e outros candidatos que não Bolsonaro.

Os líderes aumentaram a vantagem sobre os demais candidatos. Ciro, que ensaiou uma arrancada na semana passada, parou nos 11%, ao passo que Alckmin subiu um ponto (chegou a 8) e Marina desceu mais um (caiu para 5).

A disputa aponta assim para um segundo turno que girará em torno do antibolsonarismo, do antipetismo e do antilulismo, com o País claramente dividido. Ruim, mas, caso a tendência se confirme, será uma decisão soberana do eleitorado. A essa altura da História, o Brasil está preparado para conviver com o que lhe reservam as urnas.

O quadro ainda é de incerteza: não há como avaliar o potencial de veto que há no antipetismo e nem se esse potencial irá se reverter em benefício de Bolsonaro. O mesmo vale para o antibolsonarismo. Qualquer análise a respeito terá de ultrapassar o universo dos formadores de opinião e dos ativistas, capturar os sentimentos que vicejam na sociedade, e o tempo para isso é curto.

Os candidatos começam agora a calibrar as forças para a reta final. Surpresas de última hora não poderão ser descartadas, dado a alta volatilidade da disputa e das circunstâncias.  Haddad e Bolsonaro tem agora um duplo desafio: atrair o eleitorado de centro, mais moderado e mais preocupado com o futuro, e assimilar as demais candidaturas, tanto para evitar que cresçam como uma repentina “terceira via”, quanto para prepará-las para a adesão no segundo turno.

Um passeio pelas cidades talvez revele um dos segredos da disputa atual: enquanto as ruas estão calmas e pouco mobilizadas, as redes trabalham a todo vapor, como se protagonizassem uma guerra entre exércitos inimigos. E aí, nesse território de virtualidades, sai na frente quem tem mais animadores, recursos de persuasão e espaços.

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