Cálculos ocultos

É um equívoco achar que Bolsonaro governa a esmo, sem leme e rota. Suas baixarias verbais demonstram a arrogância de quem obedece a um mapa e acredita nas próprias forças.

Marco Aurélio Nogueira

05 de agosto de 2019 | 13h56

Numa das bombásticas declarações com que brindou a opinião pública na semana passada, o presidente Bolsonaro disparou: “Eu sou assim, não há estratégia”.

O jornalista Élio Gaspari escreveu: “Meia verdade, ele é assim mesmo, mas há uma estratégia para lá de bem-sucedida no seu estilo inflamado e provocador”. A estratégia pode não estar rigorosamente traçada, mas as ações e falas do presidente têm um norte, sabem para onde apontam. Seus cálculos existem, ainda que estejam ocultos.

Eles preveem, antes de tudo, erguer uma cortina de fumaça, chamar atenção, pautar a mídia. Dramatizar uma situação a partir do roteiro governamental, desobrigando-se de fornecer explicações sobre o estado da Nação.

Os cálculos querem ainda manter viva a ideia de que o passado ditatorial não foi ruim, nem muito menos correspondeu à narrativa predominante desde a redemocratização de 1985, qual seja, a de que os militares mataram e torturaram oposicionistas íntegros e honestos, defensores de um país mais justo e democrático. Nem sequer uma ditadura teria havido, mas quando muito um “regime forte”. Os fatos? A verdade? Ora, a eles as batatas…

Querem, também, ativar a imagem de que o Brasil continua ameaçado por um “inimigo público”, o PT e as esquerdas, de prontidão para atacar de novo. Trata-se de explorar a rejeição que parte da população tem aos governos petistas no plano nacional, traduzidos esses últimos como sendo causadores de paralisia econômica, desemprego e corrupção. A narrativa, aqui, é chapada, sem nuances e sem direito ao contraditório. O cálculo parece claro: quanto maior for apresentado o “inimigo”, maior será a chance de se manter a tropa unida, mais inflamada e convicta estará a base bolsonarista, com suas alas fanáticas e suas alas conformistas. Para essas últimas, em particular, é melhor um Bolsonaro na Presidência do que o risco de um retorno petista.

Esse quadro deveria orientar as oposições políticas e intelectuais ao governo. Elas, porém, não conseguem se entender. Parte delas acredita que Bolsonaro será um vento passageiro, que perderá força na medida em que aumentarem os decibéis de sua gritaria destemperada. A convicção é que a sociedade repudia as grosserias do presidente e, cedo ou tarde, saberá dar o troco.

Outra parte se mantém ocupada com o resgate da imagem de Lula, fazendo cálculos que não conseguem se soltar da figura do líder petista preso. É uma oposição saudosista, sem projeto, agarrada ao passado sistematicamente apresentado como repleto de glórias e realizações. Sua narrativa convence cada vez menos, mas não é abandonada. Aposta-se que com a volta de Lula tudo será diferente. Nada mais se oferece.

Já o centro democrático, mais à esquerda ou mais à direita, oscila entre o combate ao governo e a preocupação em apoiar as medidas governamentais que se mostrarem acertadas para impedir que o barco vire. Caso emblemático, o da reforma previdenciária. Trata-se de uma oposição de fôlego curto, pontual e pragmática, que mostra jogo de cintura na arena parlamentar, mas não sabe como travar a luta ideológica, terreno no qual muita coisa se explicita.

É um equívoco achar que Bolsonaro governa a esmo, sem leme e rota. Suas baixarias verbais não são típicas de alguém desesperado ou exausto. Ao contrário, demonstram a arrogância de quem obedece a um mapa e acredita nas próprias forças. Como bem observou o jornalista Alon Feuerwerker, em artigo recente, o presidente age tendo em vista um objetivo principal: “a instalação ou reinstalação da hegemonia operacional sobre o aparelho de Estado, e da hegemonia político-cultural. Que precisam sempre andar juntas”.

A marcha dessa máquina, que encontra ressonância e consegue o apoio entusiasmado de inúmeras redes sociais, não parece antever resistência expressiva à frente. Ao menos por enquanto. Ao menos enquanto as oposições continuarem a achar que o vento é passageiro e pode ser contido com apelos épicos e saudosistas a um passado que, querendo ou não, ficou para trás.

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