Barcelona, exemplo de política urbana que valoriza as pessoas

Marco Aurélio Nogueira

03 de janeiro de 2015 | 10h32

Falar bem de Barcelona é fácil. Não há turista ou visitante que não se encante com a cidade e não fique impressionado com sua beleza e com a alta eficiência de seus serviços públicos, a sofisticação de sua gastronomia e a qualidade de seus cavas.

Barcelona é uma cidade que cresceu e, com o tempo, foi sendo redesenhada para ficar alla misura dell’uomo, como falam os italianos: não muito grande, amigável e acolhedora, onde se pode circular, curtir e viver a vida sem atropelos excessivos. Suas ramblas, com calçadas generosas, são um convite para o passeio. Tudo valoriza as pessoas.

É verdade que a vida moderna e pós-moderno também deixa suas marcas na cidade. Há turistas aos montes, consumidores ávidos e algum tráfego inconveniente. Mas Barcelona resiste, se adapta e segue em frente sem fazer concessões exageradas. O gabarito urbano continua baixo, o que permite que o céu seja visto o tempo todo e os olhares se concentrem nas belezas arquitetônicas, que são muitas. As calçadas e o desenho urbano continuam a privilegiar o pedestre, assim como o sistema de transportes. Ônibus eficientes, novos, limpos; metrô que interliga todos os bairros; táxis excepcionais, confortáveis, baratos e com motoristas cheios de cultura e dignidade profissional. Você pode fazer uma corrida de 3 ou de 30 euros que será tratado com a mesma cordialidade.

Consta que a cidade ficou assim depois das Olimpíadas de 1992, quando um pesado investimento público foi feito para superar alguns gargalos urbanos. Se você visitou Barcelona nos anos 1980, por exemplo, e voltar a ela agora, terá a sensação de que está em outra cidade. A Ciutat Vella e o Barrio Gótico, que antes eram soturnos, exibem agora uma faceta convidativa, que faz com que todos circulem despreocupados a qualquer hora da noite. Deu-se o mesmo com a zona portuária.

A Barcelona histórica é antiquíssima. Vem do século III a.c. Conheceu muitas culturas e conviveu com muitos dominadores. Conheceu o Império Romano, depois os visigodos, os mouros no século VIII, o domínio de Castela e de Madrid. Tudo isso foi se depositando no chão e nas veias urbanas, camada sobre camada. A língua catalã de certo modo é a tradução deste processo acumulativo. Ouvindo-a pelas ruas, tem-se a impressão de que se ouve um pouco de espanhol, de português, de francês, de árabe. É a língua oficial da cidade, ensinada nas escolas juntamente com o espanhol, com o qual convive sem atritos. Tudo é escrito nos dois idiomas, mas a sonoridade é catalã, com muito orgulho. O catalão é como uma língua de combate, uma prova de autonomia. Ficou assim especialmente depois do fascismo franquista, que imprimiu sua violência na Catalunha, chegando mesmo a banir o catalão das escolas. Depois de 1980, o idioma foi totalmente reabilitado e hoje pulsa com vibração, como se quisesse deixar claro que os catalães não são somente espanhóis, ou são mais que espanhóis, quem sabe não espanhóis. Há um pouco de tudo quando se trata de saber se os habitantes de Barcelona são contra ou a favor a independência em relação à Espanha. Mas ninguém vacila na hora de empunhar a bandeira da Catalunha. Todos são — como diz um slogan do FC Barcelona, o grande time da cidade — “más que un club”.

No século XIX, como me explicou certa vez o jovem arquiteto Marco Artigas Forti, um urbanista chamado Ildefons Cerdà foi encarregado de encontrar um modo de ligar a Cidade Velha, próxima ao mar e ao porto, com o bairro da Grácia, o segundo núcleo mais antigo, próximo das montanhas. Foi dele o projeto do Eixample, ou Ensanche em espanhol (algo como “ampliação”), uma vasta zona urbana composta de quarteirões octogonais autossuficientes (as mansanas), um ao lado do outro, por onde se distribuem prédios de apartamentos, lojas e serviços. Algumas grande avenidas cortam o traçado, facilitando as conexões e organizando o espaço. A área começou a ganhar forma em 1860, quando Barcelona teve permissão para se expandir para além das muralhas medievais. Na cabeça de Cerdà, se tudo seguisse o plano, o mar e a montanha de comunicariam, garantindo sol e circulação de ar para todos. Uma grande sacada.

Hoje, o Eixample concentra o núcleo economicamente mais forte da cidade, muitas das criações modernistas dos arquitetos, bares e restaurantes da moda. É um case do urbanismo moderno. As principais obras de Gaudí, o mais conhecido dos arquitetos catalães modernistas, estão quase todas ali, como é o caso da Sagrada Família e de La Pedrera.

Quem mora na cidade de São Paulo — esta megalópole que ainda não conseguiu se aprumar e que vive soterrada de problemas e de gestões urbanas incompletas, incompetentes ou inexistentes — olha para Barcelona com uma ponta de inveja e curiosidade: como eles conseguiram? Está certo, a população é relativamente pequena (1,6 milhões), a área territorial é mais fácil de ser manejada (102 km2), a renda é mais alta e mais bem distribuída. Mas há a Grande Barcelona, a região metropolitana de 5 milhões de habitantes, os imigrantes que não cessam de chegar, as tensões com Madrid e os problemas derivados da própria dinâmica urbana. Barcelona, porém, a um olhar superficial, parece passar ao largo disto. Nela, tudo parece funcionar e nos rostos de seus moradores há mais alegria que tristeza. Nada a ver com um paraíso na terra, mas é um lugar onde todos podem estar bem, ainda que alguns estejam melhores do que outros.

Não sei a resposta, mas arrisco a dizer que Barcelona é o que é hoje por uma sucessão de bons governos, que souberam captar a essência de uma cultura, deixaram fluir a democracia e puseram em prática políticas urbanas corajosas, que foram preparando a cidade para crescer e se estabilizar. Coisas que sempre faltaram em São Paulo. É uma conclusão simplista, mas não creio que esteja muito longe da verdade.

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