Banalização do combate à corrupção é estratégia eleitoral

Ao detonar a Lava Jato e dizer que não há mais corrupção para ser apurada, presidente busca novos apoios

Marco Aurélio Nogueira

08 de outubro de 2020 | 13h15

Bolsonaro diz que “acabou com a Lava Jato porque não tem mais corrupção” em seu governo. Acredite quem quiser.
 
O importante é o que está por trás. “Acabar” com a Lava Jato é algo que não estava incluído nas promessas do então candidato, eleito de braços dados com o combate à corrupção. Implica uma ruptura com as expectativas dos “lavajatistas”, tanto dos radicais fervorosos que apoiam o bolsonarismo, como dos moderados. E é mais um claro posicionamento em defesa dos filhos, políticos com conhecidas trajetórias de trambiques, para dizer o mínimo. 
 
É também um novo aceno para o Centrão e as áreas fisiológicas do Congresso. Renan Calheiros voltou a ser ativo por ali. Bolsonaro se reposiciona para obter mais apoio, reforça sua estratégia eleitoral. Vai comendo pelas bordas, atraindo os que se sentem ameaçados pelas operações anticorrupção. Incha o governo e a administração pública com gente que topa lhe obedecer e se dispõe a barrar qualquer coisa que possa prejudicar seus familiares ou amigos. 
 
É uma espécie de regra de ouro: a corrupção deve ser combatida até o dia em que ficar evidente que ela chegou perto da minha casa. A partir de então, a luta anticorrupção passa a ser vista como artimanha das oposições, golpismo ou falta do que fazer. Foi assim antes, continua assim agora.
 
Enquanto isso, os democratas (do centro, da esquerda) fecham o bico e fingem que o problema não é com eles, que querem ficar à vontade para fazer política como sempre fizeram. É um quadro desolador.

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