Ataque ao ‘Charlie Hebdo’ exige mais resposta democrática

Ataque ao ‘Charlie Hebdo’ exige mais resposta democrática

Marco Aurélio Nogueira

08 de janeiro de 2015 | 14h19

O brutal, covarde e insano assassinato de 12 pessoas com que se empreendeu o atentado terrorista ao jornal satírico Charlie Hebdo, ontem em Paris, está sendo comentado, analisado e repudiado por todo mundo. Milhares de pessoas foram às ruas, em Paris e em outras cidades europeias, para protestar contra o crime, de rara violência, planejado nos detalhes e de consequências políticas difíceis de serem compreendidas.

Que sentido político pode haver em fuzilar a sangue frio cartunistas dedicados a submeter o poder e os poderosos ao ridículo da crítica mordaz que não poupava ninguém? Desejou-se matar o humor e a liberdade de expressão, mostrar a face intolerante do fanatismo religioso, provocar a França republicana, desencadear uma crise internacional, produzir o recrudescimento dos sistemas de segurança e repressão, reforçar o preconceito fascista contra os “extracomunitários” e o Islã? Pode ser tudo isso junto, o que faz o horror ficar ainda maior.

O crime cometido revela coisas que sabemos e com as quais convivemos, mas que continuam a nos surpreender, que assustam, chocam e desesperançam, até por estarem integradas e coladas na estrutura da vida contemporânea, fato que faz com que sejam de difícil eliminação. Coisas, em suma, que precisamos assimilar e digerir para quem sabe neutralizar.

O risco — tão bem estudado pelo recém-falecido sociólogo alemão Ulrich Beck — tornou-se parte da vida cotidiana. Não tem mais a forma do “acidente” ou do efeito colateral, indesejado, mas se converteu em algo sistêmico, muitas vezes produzido ad hoc. É imprevisível como sempre, mas todos sabem que ocorrerá sem apelação. Não há esquema de segurança que consiga eliminá-lo ou sequer monitorá-lo com precisão.

A violência e sua banalização vêm na esteira, como parte de um pacote. São impulsionadas pelo próprio modo de vida mundial, não só pela crise do capitalismo ou pela dilatação das zonas de miséria e exploração. Têm a ver com desemprego e falta de perspectivas existenciais, mas não são um produto direto e inevitável disto. Estão igualmente associadas à dinâmica política e sociocultural, às dificuldades de funcionamento dos sistemas democráticos, ao enfraquecimento dos Estados como parâmetro ético. E quanto mais a política perde força e capacidade de persuasão perante a população, mais os valores democráticos se decompõem e cedem espaços à intolerância, à agressão verbal, ao fanatismo turbinado por uma religiosidade fundamentalista que pouco tem a ver com a dimensão sagrada das religiões.

Redes, comunicações facilitadas, conectividade intensiva, visibilidade imediata, tecnologia embarcada na corrente sanguínea da vida diária, tudo empurra a sociedade contemporânea para este misto de civilização e barbárie em que vivemos.

A resposta democrática se faz presente, mas não consegue mudar a situação. Precisa ser fortalecida e renovada, convertida em vocabulário popular e língua franca, para além de lutas estéreis pelo poder político e de confrontos partidários que, hoje, estão vazios de significados densos.

Que a tristeza e o horror provocados pelo massacre do Charlie Hebdo nos ajudem a pensar nisso.

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O semanário estará nas bancas na semana que vem com uma nova edição, garantiu Patrick Pelloux, um de seus colaboradores. A equipe sobrevivente será acolhida na sede do jornal em>Libération. Na próxima quarta-feira, serão impressos um milhão de exemplares. Uma edição normal alcança 60 mil exemplares. É uma demonstração de coragem e determinação, indispensáveis nos tempos atuais.

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