As urnas falam, mas não dizem tudo

Marco Aurélio Nogueira

31 Outubro 2016 | 15h56

Compreensível a euforia do ministro Eliseu Padilha ao dizer que os resultados das eleições encerradas ontem, 30 de outubro, foram positivos para o governo Temer. Foram mesmo, pois redesenharem o mapa político do país em um sentido que indica estar a população meio que indiferente às disputas em torno do governo federal, ou ao menos torcendo por ele e não refratária a ele.

Os partidos hoje “situacionistas” passaram a dominar cerca de 90% das cidades. Além dos ganhos em termos de alinhamento político e de volume, os dados também indicam que o discurso do “golpe” passou longe dos eleitores e foi praticamente enterrado com as urnas. Poderá continuar a ser usado como bandeira e narrativa, mas sua força persuasiva se circunscreve a um gueto.

Mas o ministro também sabe – mas não tem porque dizer – que resultados eleitorais costumam ser nuvens passageiras, que se dissolvem com o lufar dos ventos. Nuvens podem ser lidas de diferentes maneiras, a indicar cenários de sinais trocados e vozes múltiplas. As figuras que cada um vê nelas são instáveis, subjetivas, ilusórias.

O PSDB ganhou mais que o PMDB, por exemplo, mas Alckmin ganhou e Aécio perdeu. Isso ajuda Temer, claro, mas também pode servir de aríete para um assalto tucano mais firme ao Palácio. Parte importante do voto se alimentou da desagregação ética e política do PT, que empurrou o partido para as margens do sistema. E o que fará o PSDB agora que o PT se diluiu como seu contraponto típico-ideal? Seguirá sendo um partido de caciques que não se bicam ou se estruturará como partido social-democrático de verdade, com projeto, programa e cultura consistentes?  Sem que se responda a isso, o futuro fica embaçado.

E o discurso da “não-política”, a que muitos atribuem as vitórias de Dória em SP, Marchezan em PA e Kalil em BH, tem alguma probabilidade de proliferar e fornecer vetores para a política nacional? Parece bem prematuro valorizá-lo em demasia, não vê-lo como mera estratégia eleitoral. A própria população acabará por se lembrar de que Dilma também era uma “não-política”, uma gerente, que deu no que deu. Tivesse ela feito mais política e hoje ainda estaria no Palácio e o Brasil não teria caído no buraco em que se encontra.

Se as urnas disseram algo é que os políticos devem tomar cuidado porque todos estão de olho neles, pronto para deletá-los.

Acima de tudo, os votos indicaram que a população deseja tocar a vida, melhorar, ser mais feliz, que é indiferente aos slogans contra Temer e o “golpe”, pouco sensível às denúncias da “perseguição a Lula” ou a coisas do gênero. Foi como se a massa gritasse a uma só voz ao PT: decifra-te ou nós te devoraremos. Fato que deverá fazer o partido entrar em nova fase, de maior introspecção, ainda que não de inatividade ou de falta de combatividade. Juntamente com ele, as esquerdas terão de se definir e se reposicionar, se é que pretendem cumprir algum papel de relevo. Não é pouca coisa.

Em suma, há bons motivos para que Padilha e o governo comemorem, mas nem tudo são flores nos jardins da República. Longe disso. Tensões, turbulências e dificuldades se anunciam como inevitáveis para os próximos meses.  Por isso mesmo, o que virá pela frente será revelador do que significaram as eleições de 2016 e em que medida elas se ligarão, ou não, às de 2018.