As ruas polarizadas

As ruas polarizadas

Um espírito revanchista e hostil à política desceu às ruas nesse domingo. Sua marca registrada é a confusão.

Marco Aurélio Nogueira

27 de maio de 2019 | 11h50

Pode não ter sido o mar de gente que os mais otimistas imaginavam, mas as manifestações em apoio ao governo Bolsonaro foram suficientes para repercutir no cenário político.

Antes de tudo porque mostraram que o governo não está abandonado, que ao menos parte de seus eleitores continua a seu lado. Na Av. Paulista, uma faixa dizia: “Juntos somos mais fortes, com Deus somos invencíveis”. É um exagero, porque ninguém pode saber de que lado está Deus nessa barafunda de proclamações que invadiu o País. Mas a frase condensa o que esperavam os manifestantes e o próprio governo: dar uma demonstração de que a chama da “revolta” ainda não se apagou.

Continua a haver, na sociedade, um espírito revanchista e hostil à política. Foi esse espírito que desceu às ruas no domingo. Sua marca registrada é a confusão. Atira-se para todos os lados, por mais que o alvo seja reiterado: somos contrários à “velha política”, aos partidos e parlamentares, à democracia representativa, com seu ritmo negocial e suas tratativas prolongadas.

Fácil imaginar que, por trás desse trololó regressista, oculta-se uma alma direitista aberta para todo tipo de aventura. Ela, no entanto, pulsa mais forte em ativistas do que na massa do povo bolsonariano. Os verdadeiramente extremistas nem sequer mostraram a cara, diluíram-se na multidão. Desceram às praças e avenidas cidadãos de perfil variado: reacionários de carteirinha, provocadores baratos, ingênuos cívicos, gente que despreza os políticos, malucos querendo ver o circo pegar fogo, adoradores do “mito”, amantes da lei e da ordem, gente incomodada com a corrupção, lavajatistas radicais, cidadãos assustados, contrários a privilégios e a favor do combate ao crime.

Os milhares de manifestantes que foram às ruas ontem não podem ser qualificados pura e simplesmente de direitistas. Várias de suas bandeiras são comuns ao campo democrático e de esquerda. Fazem parte de um espécie de “utopia” nacional.  Muitos são pessoas simples, com pouca coisa na cabeça e muita raiva no coração, carregado de frustrações e ressentimentos que, na falta de melhor explicação, são atribuídos ao PT e aos “vermelhos”. São pessoas que, ao longo dos últimos anos, foram abandonadas pela pedagogia democrática, pela derivação populista da esquerda, pelo encolhimento dos democratas.

São filhos de uma polarização que não deveria ter sido alimentada e que, hoje, só beneficia ao governo. Desse ponto de vista, é contraproducente ficar procurando comparações entre o tanto de gente que foi às ruas dia 26 e o tanto de gente que protestou contra o governo dia 15. É um exercício que só faz separar a sociedade em dois blocos congelados, incomunicáveis.

A polarização no chão social sobe fácil para o vértice do sistema. Faz a temperatura ficar elevada, com o Executivo atritando o Legislativo e sendo por ele atritado, sem que se veja no horizonte qualquer saída. O vértice, porém, tem suas responsabilidades. Não pode se deixar contagiar pelas vozes das ruas, cuja passionalidade separa “esquerdistas” e “direitistas”, vermelhos e verde-amarelos, sem que cada lado saiba bem de que matéria são feitas as suas escolhas.

Excesso de ideologia e passionalidade cega são o caminho mais curto para a insanidade geral. Nos turbulentos dias que correm, necessitamos de boas doses de pedagogia cívica e da ação serena e firme dos políticos democráticos. Que se isolem os radicais que querem guerra e enfrentamento, se possível arrastando a Presidência consigo. Governo é coisa séria. Não existe para garantir que tudo o que sai do Executivo é correto e será aprovado. Precisa ser vigiado, controlado, pressionado, para que não se dedique a produzir maldades em fileira.

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