As ruas não têm dono, são plurais e democráticas

Novos protestos democráticos latejam no horizonte. Se vierem a se expandir de modo plural, contribuirão para que venha a existir um governo com respaldo político, sensibilidade social e espírito reformador.

Marco Aurélio Nogueira

01 de junho de 2021 | 13h53

Foto Peia S. Dias

Ao dizer, com a costumeira e tosca grosseria, que “faltaram erva e dinheiro” aos manifestantes que foram às ruas em grande número, no sábado 29 de maio, para protestar contra seu governo, Jair Bolsonaro passou recibo. A ironia afrontosa e antidemocrática não conseguiu ocultar o incômodo presidencial com o sucesso dos atos.

É evidente que manifestações semelhantes crescerão, com o avanço da vacinação e com a melhoria da articulação das oposições. O presidente e seus seguidores sabem disso também. A rispidez com que reagiram confirma o receio que têm da ampliação dos protestos, que ferem a jugular do governo e ajudam a desgastá-lo.

O momento é de avaliação de riscos e demarcação de território. As ruas jamais foram monopólio bolsonarista. As oposições só não as ocuparam antes por causa do vírus. A impressão de que o presidente as controlava cresceu na medida em que se sucederam aglomerações fanatizadas e hostis a qualquer medida sanitária. Bolsonaro tem conseguido interpelar importantes setores da sociedade e mostra resiliência não desprezível. Mas não voa em céu de brigadeiro e a cada dia perde apoios que dificilmente serão recuperados.

Novos protestos democráticos latejam no horizonte. A persistência da pandemia continua a ser uma ameaça real, que precisa ser considerada com cuidado. É um tema que está na pauta das organizações oposicionistas. Eventuais divergências nessa área terão de ser processadas, de modo a que não se abandone a perspectiva estratégica da unidade oposicionista. As ruas não podem ser tratadas como se fossem reserva das esquerdas e dos movimentos sociais. Qualquer sucesso da mobilização contra o governo dependerá da expansão plural das manifestações.

Análises políticas do momento político são aquelas que se mostram capazes de captar o movimento, o processo, as possibilidades, as vantagens e desvantagens de ações concretas, o quanto a pressão delas derivadas agrega ou somente gera ruído, e assim por diante. O desafio político de hoje passa pela possibilidade de compor uma “frente” que acomode correntes democráticas que vão da direita à esquerda, de liberais e conservadores a socialistas. Uma articulação desse tipo cumprirá uma dupla função: aumentará a possibilidade de vitória democrática em 2022 e criará as condições para a instalação de um governo com respaldo político, sensibilidade social e espírito reformador.

 

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