As ruas, a voz das ruas e a judicialização da política

Marco Aurélio Nogueira

18 de dezembro de 2015 | 00h07

Não dá para medir o conflito político por meio de números. Discutir para saber quem levou mais gente às ruas contra ou favor de Dilma não melhora a compreensão do quadro. Seria preciso ouvir a voz dos manifestantes e analisar as circunstâncias que facilitaram ou não as mobilizações.

Se a “direita” pede “fora Dilma e fora Cunha” e a esquerda grita “fica Dilma, fora Cunha e fora ajuste fiscal”, não haveria nisto campo para um tipo de convergência ou, mais ainda, para que se perceba o grau de confusão, superficialidade e ilusão que prevalece entre os manifestantes de um lado e de outro? A impressão é que há  uma falta generalizada de confiança, clareza e convicção. Além de muita dificuldade para imaginar o dia de amanhã. Vaiar ou aplaudir o impeachment não é algo que contagie a população, e nem sequer os ativistas.

Ficar preocupado em saber se os números da polícia são mais ou menos confiáveis que as estimativas dos que conduziram as manifestações, se a esquerda encheu as duas pistas da Paulista enquanto a direita só conseguiu fazer isso com uma, se a mobilização da direita foi “corrompida” pela presença da TFP e de “marombeiros” ao passo que dá esquerda precisou da ajuda dos ônibus fretados pela CUT, somente prova que os atos tiveram pouca serventia. Não pesaram e não tiveram efeito no processo do impeachment.

Falta política nas manifestações, assim como falta política no Congresso. Cada ala se esforça somente para sair bem na foto e salvar a própria pele. Trata-se de poder, não de “interesse geral”. A política, em Brasília, é um bem escasso. Prova disso é que todos os olhares estiveram sempre voltados para o  Supremo, ator maior da judicialização em vigor.

E o STF, dividido, embananou o processo. Fez com que tudo voltasse à estaca zero, ou quase.

Dezembro é mês de festa e confraternização, bem mais que de luta política. As pessoas querem celebrar e ficar com os amigos, mais que gritar contra ou a favor de Cunha e Dilma. Com o impeachment em  banho maria, ao sabor do STF e é à espera da decisão sobre o recesso, com a velocidade frenética dos fatos, tomar posição pode representar uma decepção ou um erro de cálculo. Ou será que alguém pode garantir que o amanhã será melhor se Dilma ficar ou sair? Ninguém também tem como prever o próximo passo da Lava-jato.

Bem mais importante é saber o que farão as ruas se o processo vier a ser efetivamente ativado. Aí sim dará para descobrir a força que terão, ou não. Isso, porém, é impossível de descobrir hoje. Só dá para saber que o apoio a Dilma é menor do que a vontade de ir para a rua protestar. Estão faltando argumentos, serenidade analítica e generosidade política. De ambos os lados.

Por enquanto, o melhor é olhar para cima e tentar decifrar os movimentos dos operadores principais, os juízes e os políticos. Salvo prova em contrário, ou melhor juízo, deles é que tudo dependerá. Se, depois, o impeachment sair do papel, aí sim será o caso de avaliar o real poder de fogo das ruas.

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