Aos que querem governar

Máximas famosas destacam a complexidade da política e as exigências que ela faz aos candidatos

Marco Aurélio Nogueira

27 de novembro de 2020 | 17h00

Foto Peia S. Dias

 

Alguns axiomas e aforismos nunca deveriam ser esquecidos em épocas eleitorais.

“Ninguém ganha eleição na véspera” é um dos que são sempre repetidos, mas nem sempre seguidos. Votos flutuam, há decisões de última hora, provenientes daquela conversa derradeira com o amigo que desaparecera, com o vizinho, às vezes até mesmo no elevador, na boca da urna. Pesquisas captam algumas flutuações, mas não conseguem registrar todas. Candidatos, porém, são seres positivos: veem nas nuvens figuras que a esmagadora maioria dos mortais nem imaginam existir. Consta, aliás, ter sido Magalhães Pinto, político mineiro, quem disse que política é como nuvem: “você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”.

No seu Breviário dos políticos (1642), o Cardeal Mazarin pontificou: “Desconfia de tudo aquilo a que te arrastam teus sentimentos”. Candidatos em campanha podem morrer pela boca. Quando falam demais, ou mesmo quando não falam. Expressões, posturas, atitudes pregressas, fama acumulada, tudo pode produzir impacto no eleitor. Por isso mesmo, o cardeal insistia tanto na simulação e na dissimulação: o político não deve demonstrar emoção, deve fingir que tem amizade com todo o mundo, mesmo com aqueles a que odeia. Precisa saber ocultar a cólera e “fazer de modo que ninguém jamais conheça nem tua opinião verdadeira sobre uma questão, nem até que ponto estás informado sobre ela, nem o que desejas, aquilo de que te ocupas e o que temes”.

O cardeal levou essa convicção ao limite. Recomendava ao político: “Arranja-te para que teu rosto jamais exprima nenhum sentimento particular, mas apenas uma espécie de perpétua amenidade”. O segredo estaria em aparentar, não em ser, em conseguir aparecer para os outros. “Simula um ar modesto, cândido, afável, finge uma perpétua equanimidade”. Acrescentava com seriedade: “Memoriza, de modo a ter sempre à disposição, um repertório de fórmulas para saudar, replicar, tomar a palavra e, de maneira geral, enfrentar todos os imprevistos da vida social”. A ideia é basicamente uma só: seja eficaz.

Mazarin teria reformulado algo se conhecesse nossa sociedade de informação, que também é uma sociedade da imagem, especialmente da autoimagem? Talvez ponderasse mais, preocupado com a transparência excessiva e pressionado pelos direitos dos cidadãos-eleitores, mas veria, em comportamentos que se repetem a nossos olhos, eleição após eleição, que o fundamental de seus ensinamentos se preservou ao longo dos séculos, atualizando-se e sendo incorporado pelos políticos de A a Z, da direita à esquerda. Tanto quanto no século XVII, os políticos continuam fazendo de conta e dissimulando, de olho na realidade do poder. Diferentemente do que pregava Mazarin, olham também para a glória e a fama. E sabem, como ninguém, que a manipulação (dos consensos, dos votos, dos aplausos, dos apoios) produz poder e o reforça.

E o que dizer do “diga-me com quem andas e direi quem és”? Padrinhos, apoiadores estrelados, artistas, vida mundana, vices mal falados, familiares incômodos, todos podem ajudar ou atrapalhar. O ideal é que os que cercam o político sejam bem “administrados”.

Presença obrigatória no universo dos conselhos aos poderosos, Maquiavel sabia que, nos “principados novos” (nas democracias e nas repúblicas incipientes), a dificuldade natural está no fato de “os homens gostarem de mudar de senhor, acreditando com isso melhorar”. Iludem-se com facilidade, caem em armadilhas que em pouco tempo os desencantam.

Por isso, em O Príncipe (1513), o florentino sugeria, com o realismo que o faria um dos grandes da filosofia política, que “as injúrias devem ser feitas todas juntas a fim de que, tomando-se menos o seu gosto, ofendam menos, enquanto os benefícios devem ser feitos pouco a pouco, para serem mais bem apreciados”.

Maquiavel também percebeu que o acaso e a astúcia contam muito, às vezes até mais que a virtù e a fortuna. Não lamentava, mas tentava compreender as chances que teriam aqueles que se tornam príncipes graças ao apoio de seus concidadãos, contando com uma “astúcia afortunada”.

O príncipe, ou os candidatos a príncipe, precisam buscar sempre “a verdade efetiva da coisa”, mais que “uma imaginação sobre ela”. Agir como centauros: precisam ser humanos sem desprezar a natureza animal do leão e da raposa. Precisam “da raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos”. Não podem seguir “todas aquelas coisas pelas quais os homens são considerados bons”, já que podem necessitar, conforme as circunstâncias e para manter o poder, “agir contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade e contra a religião”.

Fala-se muito, por fim, em “dividir para conquistar”, coisa que os antigos romanos cansaram de fazer e que segue viva até hoje.

Termino com duas máximas fabulosas, que deveriam nos servir de lema nesses dias tumultuosos em que vivemos.

“Nada há de errado com aqueles que não gostam de política; simplesmente serão governados por aqueles que gostam”. (Platão).

“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”. (Nelson Rodrigues).

Tirem suas conclusões e votem em paz no domingo.

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