Ao estigmatizar os adversários como sendo “de direita”, esquerda perde credibilidade

Marco Aurélio Nogueira

13 Novembro 2015 | 10h52

Este é um daqueles textos que somente são escritos porque a confusão se instalou de tal forma que temos de revisitar o básico para ver se melhoramos nossas percepções e nossos posicionamentos.

Não há ofensa maior, para as pessoas de esquerda, do que a qualificação de “direitista”. Ver um adversário como alguém que descambou para a “direita” tem sido, ao longo do tempo, a forma mais corriqueira de tentar organizar o próprio campo: seriam de “esquerda” todos os que comigo concordam, restando aos discordantes a pecha de “direitistas” ou “esquerdistas”. Nos partidos políticos de esquerda, invariavelmente foi utilizada a imagem da “linha justa” para demarcar aquilo que seria a opinião correta (ou seja, a opinião da maioria dos que controlavam o poder partidário) dos “desvios” de esquerda e de direita. Em sua manifestação mais perversa e doentia, tal procedimento fez a fama do stalinismo, que em nome precisamente da “linha justa” trucidou comunistas que ousaram divergir do “guia genial dos povos”.

É uma história longa, que não pode nem precisa ser contada aqui.

No Brasil recente, descobrir “direitistas” virou rotina de muitos militantes de esquerda, mais identificados ou menos com o PT, os governos petistas e os partidos que se pretendem senhores da esquerda. Cresceu uma espécie de “pensamento único”  de esquerda, segundo o qual existiria somente um caminho para a emancipação nacional, somente um governo justo, somente uma orientação adequada e somente uma liderança qualificada.

Este pensamento animou a criação de um “Nós” absoluto, integrado por pessoas comprometidas com os pobres, as reformas sociais, a emancipação nacional. Todos os que questionassem este “Nós” formariam um “Eles” igualmente absoluto, com os quais não se poderia tergiversar, nem muito menos conversar: inimigos de classe, reacionários ou gente afetada pela praga da “direitização”. O “Nós” seria puro, seus integrantes seriam ativistas bem-intencionados, com visão política superior, aos quais tudo deveria ser permitido. O “Eles”, ao contrário, estaria irremediavelmente manchado, composto por pessoas desqualificadas, elitistas e hostis ao povo, uma espécie de “rebotalho” que precisaria ser tratado a ferro e fogo.

Foram jogados nessa posição todos os que se opuseram a certas práticas nefastas e aos governos petistas de Lula para cá, mesmo que esta oposição se pautasse pela temperança e criticasse somente alguns aspectos da experiência e não o quadro todo. Do PSDB ao PPS, passando pela Rede, pelo PV e pelo PSB, entre outros, tudo foi acomodado no mesmo pacote infamante da “direita”. Foram vistos como sendo uma espécie de linha auxiliar do “conservadorismo”, ou como direitistas propriamente ditos. Junto entrou também a mídia, a grande imprensa, sempre tratada como “golpista”, em contraposição rasa com a “boa mídia” chapa branca.

Tachar o adversário de “direitista” significava interditá-lo como interlocutor. Bastava uma pequena divergência para que se sacasse do bolso a arma da estigmatização: “coxinha”, “reacionário”, “neoliberal”. A manobra buscava purificar os acusadores, expiando seus crimes e culpas. Para alargar o foco e aumentar sua contundência, enfiou-se no mesmo saco da “direita” tudo o que não seria de “esquerda”: conservadores, centro, liberais, moderados, reformistas. Uma confusão sem fim, que chegou ao ápice durante o processo eleitoral de 2014, sobretudo nas redes sociais.

Tal atitude continua em plena vigência. Sua base é simplória e dogmática. Nela, não se pensa a política de modo plural e dialético ou não se pode por em dúvida “verdades” tidas como sagradas. Também não se historiciza a questão, não se admite que esquerda e direita são conceitos relativos, tanto no sentido de que se remetem um ao outro, quanto no sentido de que mudam com a história, ganham novos conteúdos conforme os tempos e as circunstâncias. Faz-se acusação reducionista, valendo-se algumas vezes da localização do adversário numa espécie de panteão negativo integrado pelas bestas-feras da direita mais militante e assumida.

O resultado tem sido o aguçamento de uma polarização caricata, vazia de substância e concentrada exclusivamente na valorização do poder governamental, em nome da qual vetos cruzados passam a ser interpostos. Tem-se obtido com isso a estagnação da própria esquerda, que fica sem se renovar e sem atualizar o repertório, olhando o próprio umbigo. Pondo a culpa nos outros, nas elites e no sistema capitalista. E xingando seus adversários, às vezes até mesmo os que integram seu próprio universo. Em suma, parada no tempo e sempre mais dividida.

Chegamos ao ponto em que estamos hoje: ausência de projeto nacional, desgoverno total, uma sociedade atarantada e um campo progressista e democrático — a esquerda — encolhido, sem saber o que dizer ou fazer, e pior, atribuindo seu encolhimento à súbita irrupção da direita. A obsessão em descobrir e denunciar “direitistas” tornou-se, assim, expediente inócuo, que ajuda a que os verdadeiros direitistas cresçam e apareçam.

No léxico da esquerda, fala-se de “direita” de duas maneiras típicas. Internamente ao universo da esquerda, ser de direita é um desvio, uma falha de caráter, significaria ceder ao reformismo e abandonar o “caminho revolucionário”. Significaria ser excessivamente democrático e liberal, pouco dogmático e “ortodoxo”, cego para a “luta de classes”, hostil ou indiferente ao marxismo-leninismo e ao centralismo democrático. Em suma, um verme que precisaria ser esmagado para não atrapalhar o avanço da causa ou a manifestação plena da Verdade.

Externamente ao universo da esquerda, ser de “direita” é uma condição social, expressão da luta de classes, é ser defensor do capitalismo, a favor do mercado e contra o Estado, os direitos sociais, a regulação política, a igualdade, etc. Em seu limite, ser de direita é ser um fascista, um reacionário, um pró-imperialista e, claro, um neoliberal.

Assim empregado, o conceito ganha em contundência, mas peca pela generalidade, fato que, no embate político prático, mais atrapalha que ajuda. Deixa-se, por exemplo, de considerar que pode existir uma direita mais liberal e elitista ao lado (e muitas vezes em oposição a ela) de uma direita autoritária e populista. A direita “civilizada” e a direita fanática, fundamentalista. Uma não se reduz à outra, ainda que ambas possam ser favoráveis ao capitalismo e contrárias ao compromisso social-democrático que viabilizou o Estado de Bem-Estar. Com a primeira direita, é possível conversar; com a segunda, a relação é de combate.

A generalização tem ainda outro efeito colateral deletério: instiga os que são xingados como “de direita” a se tornarem mais permeáveis ao discurso da direita, a se comportarem como vítimas que reagem a uma acusação carregada de ofensa e estigmatização. Fica assim difícil descobrir quem desencadeou o “ódio generalizado” que dizem estar tomando conta do País.

A mesma distinção poderia servir para complicar o mundo da esquerda. Quem o integra? Existe somente uma esquerda ou estamos perante um conjunto de postulações? Entre um comunista e um social-democrata são muitas as distinções, mas muitas também são as semelhanças. Uma esquerda revolucionária que se projete como extremista tem pouco que ver com uma esquerda democrática que se queira radical. Há ou não uma nova esquerda emergindo nos interstícios da velha esquerda, a esquerda tradicional? Seria preciso estabelecer com clareza as diferenças específicas.

Ao passo que a definição para fora segue uma lógica perfeita (bem esclarecida, por exemplo, pelo Bobbio de Esquerda e Direita. Razões de uma distinção política), a definição para dentro quase sempre mistura alhos com bugalhos e é extremamente flutuante, já que não obedece a lógica conceitual nenhuma, limitando-se a seguir os ventos dos posicionamentos políticos mais imediatos: aquele que é “direitista” hoje pode se tornar “esquerdista” amanhã, e vice-versa. Um stalinista (taticista, autoritário, dogmático) pode ser, conforme os ventos, qualificado como de esquerda, de direita ou estar na “linha justa”. Velhos stalinistas se atualizam para permanecer vivos no circuito, posando de super-revolucionários quando conveniente. Outros, que circulavam com a marca da “heterodoxia”, repentinamente trocam de roupa e passam a vociferar contra o pessoal da “direita” como neostalinistas sem coragem para mostrar a própria face. Um “reformista” de ontem torna-se repentinamente “revolucionário” hoje, caso suas posições de poder tenham sido afetadas e ele precise passar para a oposição dentro do partido.

Em suma, um verdadeiro mingau, que se esparrama e a todos engole.  É uma gosma que impossibilita a que a própria esquerda se apresente ao público e dialogue com o mundo.

Palavras também são instrumentos de combate. Servem para esclarecer, argumentar e demarcar. Não deveriam ser usadas aleatoriamente ou de modo leviano, nem pecar por excesso. Requerem precisão, para não produzirem o contrário do que se almeja.

Não faz muito sentido tratar a diferença entre esquerda e direita como cachorro morto, como algo que pertence a um passado que não volta mais. A diferença é real, tem substância e é um recurso útil para que se compreendam a dinâmica política, os conflitos sociais e as escolhas governamentais. Trata-se de um critério de interpretação, portanto. Ainda vivemos e, creio, continuaremos a viver, sob a lógica desta diferença, porque continuaremos impulsionados pelo conflito entre distintas posições no que diz respeito a igualdade e desigualdade, liberdade e autoridade. A questão de saber como atingiremos padrões superiores de igualdade substantiva jamais poderá ser resolvida de uma vez por todas. O tema da socialização e do socialismo idem. Assim também com a democracia e a liberdade.

Basta um rápido olhar para que se veja que a direita está hoje experimentando uma espécie de nova estação. Está nas ruas e nas redes. Os democratas e a esquerda democrática não podem silenciar diante dela. Mas a crítica a essa direita precisa ser feita de modo rigoroso, não mediante generalizações adjetivas.  Não se trata de uma social-democracia que perdeu o rumo e se abriu para o neoliberalismo. Não se trata dos liberais que cultivam a democracia e a liberdade individual mas respeitam o mercado e querem um Estado mínimo. Não se trata das correntes socialistas moderadas e antirrevolucionárias.

A direita que se deve combater tem um núcleo comum de características que a singularizam como corrente política: a insistência na violência verbal (quando não na violência física), o menosprezo pela política e pela representação democrática, desejos comunitários controladores e refratários à liberdade pessoal, um anticomunismo visceral e um antiliberalismo  irracional, “horror” a políticas de proteção aos mais pobres. Essa direita é muitas vezes, também, anticapitalista e estatista, vendo o mercado, a concorrência e a liberdade como fatores de desagregação social e de exacerbação dos “genes corruptos” do ser humano. Nenhum destes traços aparece a não ser na direita fanática.

A distinção entre esquerda e direita não deveria ser manuseada de modo passional, valorativo, para fazer o elogio da própria parte. Esquerdistas e direitistas consideram-se sempre, a si próprios, como posições intrinsecamente positivas, descarregando toda a negatividade na posição contrária. A esquerda tem mais orgulho de si própria e gosta de se apresentar como tal. A direita procede de modo dissimulado, disfarçando-se sob rótulos mais digestíveis: amigos da liberdade, defensores da família e dos bons costumes, cristãos, inimigos da corrupção. No Brasil atual, porém, tem-se afirmado uma tendência à inversão destes papeis, com a multiplicação das pessoas que se vangloriam de “não ser de esquerda” ou mesmo de estarem na luta para combater a esquerda. Há que se entender o porquê disso. Não teria sido porque a esquerda não soube valorizar a si própria, descuidou de sua imagem e de sua identidade?

A visão dicotômica é natural nas pessoas, como claro e escuro, pequeno e grande, alto e baixo. A política teria de ser capaz de complicar esta visão, mediante a mobilização de suas correntes mais arejadas, generosas e democráticas. Surrupiada para fins de mera luta pelo poder e pela própria afirmação, turbinada ideologicamente, a dicotomia é reduzida a maniqueísmo grosseiro e deixa de fazer sentido: torna-se xingamento.
Isso é assim em todo lugar. Mas no Brasil as coisas saíram do razoável, seja porque não temos, nem nunca tivemos, partidos “programáticos” fortes, seja porque os debates, no campo da esquerda, são miseravelmente medíocres.
Aqueles que, no universo da esquerda brasileira, se comportam como Torquemadas do progresso social, atuam como se fossem militantes da direita. Em vez de dialogar com a realidade e agir reflexivamente sobre ela, procedem doutrinariamente mediante estigmatizações de tipo taticista: tudo será certo se for para justificar o poder de que se dispõe ou que se apoia, independentemente de saber se este poder está ou não agindo de forma progressista, democrática, responsável, justa e favorável à maioria, como deveria ser em um governo de esquerda.
Alguns destes justiceiros de esquerda são cínicos e sabem que estão somente jogando para a plateia, que no fundo não se distinguem daqueles que buscam estigmatizar. Muitos tiram o que podem da política, inclusive dinheiro. Tornam-se ricos e bem de vida.  Para processar a angústia e a culpa (ou a vergonha) que sentem, para acalmar o ego da tensão em que se encontra, terminam por chegar a uma racionalização como mecanismo de defesa, passando a ver todos os que pensam diferentemente como sendo “de direita”.
Inquisidores são sempre um fator de atraso e estagnação. Não têm como contribuir para que a esquerda respire e se projete como força democrática construtiva. O tribunal em que imaginam julgar os “traidores” é artificial e somente serve para aliviar as deficiências de compreensão e os defeitos de caráter daqueles que se pretendem “juízes”.
Quanto antes se perceber isso, melhor.