Ajustar o foco

Os democratas precisam compreender onde erraram e refazer o caminho, valorizando o que foi conquistado de 1988 para cá

Marco Aurélio Nogueira

05 Novembro 2018 | 12h08

Entre os cerca de 90 milhões de eleitores que não votaram em Jair Bolsonaro há inúmeros cidadãos preocupados com o futuro do País e com a questão de saber “o que fazer” no próximo ciclo político.

Esse universo ainda está impressionado com o tamanho da vitória do presidente eleito e com o ímpeto do movimento que o impulsionou.  A direita venceu, mostrou capacidade de persuasão, ingressou em setores que pareciam consolidados como plataforma democrática. Fez isso aproveitando com inteligência as falhas e os erros de estratégia de todos os partidos que se posicionavam do centro para a esquerda.

A derrota dos democratas não caiu do céu, nem foi acidente de percurso. Veio junto com uma dificuldade grande de interpretar as transformações que estavam a ocorrer na sociedade ao longo da última década. Transformações na estrutura da economia, na estrutura da vida, na estrutura do mundo, nos comportamentos, na dimensão comunicacional, na política e, last but not least, na democracia.

A democracia passou a balançar enquanto sistema, no mesmo ritmo em que se ampliava como estado de espírito. Sem partidos e organizações permanentes, ao sabor da efervescência das redes e das culturas nelas formadas. Pela direita e pela esquerda.

Nesse quadro, partidos e candidatos continuaram a agir analogicamente, de costas para o que crescia nas ruas e se mexia sempre mais por meios digitais: a indignação, a desconfiança nos políticos, o desprezo pelo modo “tradicional” de fazer política, a crítica à corrupção, o desejo de mudança. Tudo isso desaguou na campanha vitoriosa de Bolsonaro.

Os democratas terão agora de compreender onde erraram e refazer o caminho, valorizando o que foi conquistado de 1988 para cá. Precisarão ajustar o foco e voltar a agir. O momento é de pasmo e cautela, pede mais reflexão que agitação. Pensar bem, ver o que é possível fazer, com serenidade e sem precipitação.

Fácil de falar, mas difícil de praticar, essa diretriz está sendo ostensivamente “desobedecida” por muitos democratas que, em suas intervenções, dedicam-se a cogitar de planos mirabolantes de “resistência” e veem conspirações por toda parte, numa continuidade interminável do “golpe”. Põem-se para fora ressentimentos e frustrações,  os demônios internos que nos assustam a todos, os medos, o desejo de denunciar crimes e abusos.

Não é de surpreender a entrega dedicada de tantas pessoas à construção dessas fortalezas imaginárias, desses refúgios de “resistência” e contestação.

As posturas hoje prevalecentes não se alterarão com rapidez. Falar mal do poder é sedutor, sobretudo quando o poder vale-se de uma retórica agressiva e exibe traços teratológicos.  A sociedade, encrespada e dividida, amplifica a disposição contestatória. Combater o poder é mais difícil, requer disposição, paciência, diálogo, análise crítica. O tempo corrige algo, desbasta excessos retóricos e imperfeições argumentativas, na medida em que a dinâmica governamental vai ficando mais clara e os agentes políticos se reposicionam. Uma tensão, porém, permanecerá,  contrapondo uma oposição “negativa” e de “agitação” a uma oposição “construtiva”, que conteste, proponha e ocupe espaços institucionais.

O primeiro tipo de oposição já está dado. Nasce do estado de espírito pós-eleitoral, alimenta-se do desejo de “resistir”, por medo ou cálculo. A agitação será seu fio condutor.

O segundo tipo é um vir-a-ser. Não existe, especialmente porque a vitória de Bolsonaro liquidou muito da política “tradicional”. A meta política do novo governo será completar o ataque contra a “esquerda” petista e encurralar o centro político e o campo democrático, como social-democracia, como liberalismo democrático. Poderá ser auxiliado, aqui, paradoxalmente, pelo obtusidade da “esquerda”, que nos últimos tempos bateu sem trégua nos democratas liberais, nos reformistas, nos moderados, acusando-os de crimes hediondos, mesmo quando mais precisou deles.

O novo governará procurará atingir sua meta política, antes de tudo, impulsionando o adesismo, que tenderá a levar para a órbita governamental alguns pedaços da centro-direita e o fisiologismo, juntando aí o velho e bom “Centrão” com o apetite carreirista de políticos como João Dória.

A outra parte da meta poderá ser cumprida com a ajuda do combate à corrupção, a ser pilotado por Moro, cujas medidas dificilmente poderão ser contestadas de forma cabal pelos democratas. Afinal, embora não seja um mal tão grande quanto a desigualdade social, a corrupção é um problema que, ao não ser enfrentado, sufoca e corrói a democracia, inviabilizando justamente as políticas de promoção da igualdade. Desse ponto de vista, uma política anticorrupção bem compreendida poderá ajudar a varrer o que não presta no sistema político.

A gestação de uma oposição democrática que contenha um projeto de “novo movimento político” já teve início. Mas levará algum tempo para produzir resultados, até mesmo porque não estão claros quais serão seus desdobramentos. Implicará a criação de um novo partido ou se dedicará à construção de uma frente democrática com os partidos existentes? Terá criatividade suficiente para navegar nos fluxos digitais em que vivemos? Conseguirá atrair “sangue novo”, mobilizar os jovens e os que pensam a política de outro modo? Apresentará um programa que abarque os múltiplos temas que brotam na sociedade do século 21?

A discussão prática, portanto, tem a ver com o fazer: o que, com quem e como.  Somente com esse enfoque será possível aperfeiçoar a “teoria geral” que já está esboçada, que é uma “teoria” democrática realista, unitária e incrementalista.

Se a direita veio forte, a oposição a ela não poderá ser fundada na “agitação”. Uma ótica “construtiva” terá de vir junto com a “contestação”, e comandá-la.