#AgoraÉQueSãoElas: Protestar para voltar a ser gente

Marco Aurélio Nogueira

04 Novembro 2015 | 09h14

Quando li o texto de Janaína Leite em seu perfil no Facebook, me emocionei de verdade. Palavras cortantes, diretas e belas nos alertando e buscando nos mobilizar. Uma acusação a todos, um chamamento à ação.

Diante do descalabro que é o Projeto de Lei 5.069/2013, o “Eu acuso” de Janaína nos faz pensar nas dificuldades e nos obstáculos para que a democracia e a liberdade prevaleçam e se consolidem como norma de conduta e cultura. Caso vier a ser aprovado, o PL punirá duplamente a mulher: além de violentada por um crime bárbaro e hediondo, o estupro, ela ainda terá de provar que o fato ocorreu, terá sua palavra posta em dúvida e será obrigada a expor sua vergonha em um exame pericial humilhante e constrangedor.

É algo infame, que jamais poderia ser nem sequer discutido num parlamento democrático.

 

Eu acuso

Janaina Leite

Acuso governo e oposição de só pensarem no poder e se esquecerem do povo que juraram representar.

Acuso governo e oposição de permitirem que a presidência da Câmara seja exercida por um sujeito envolvido em escândalos de corrupção desde o início da década de 1990.

Acuso governo e oposição de ficarem de joelhos diante de um político menor, retrógrado, vazio, manipulador e doloso, reconhecido por alguns de seus pares como nada mais que um psicopata.

Acuso governo e oposição de calarem suas bocas e mãos, omissos, quando não mancomunados, com o câncer do pragmatismo, do imediatismo, da aceitação das piores práticas.

Acuso governo e oposição de terem permitido que uma aberração como o PL 5069, que retira direitos das mulheres e coloca sob desconfiança as vítimas de violência sexual, tenha passado por todas as comissões e só possa ser parado, agora, no plenário.

Acuso a presidente, que é mulher e usou tal condição para conseguir o voto do seu gênero, de ficar calada diante dessa ignomínia, eximindo-se de ir a público e de fazer o seu papel.

Acuso a academia de ficar presa a um compromisso com partidos e ideologias, incapaz de responder à altura da afronta que o Legislativo agora faz às mulheres.

Acuso a direita de ficar cega aos desmandos das igrejas e denominações, de fomentar uma cultura de submissão, de não se importar com a multiplicação da dor e da miséria.

Acuso a esquerda de ser inconstante e volúvel, de deixar à deriva quem depende dela, e de seguir atrás da manutenção de cargos e benesses.

Acuso a UNE por ter virado a cozinha de partidos políticos, esquecida da tradição altiva das gerações precedentes.

Acuso os artistas de terem se vendido barato, dependentes que se tornaram do dinheiro alheio, deixando de lado a força de sua voz e a capacidade de atrair os demais para as manifestações.

Acuso as mulheres de não cuidarem de si. De acreditarem em denominações e preceitos, de separarem as mãos que devem estar unidas nas ruas, impedindo que o Congresso solape suas conquistas.

Acuso a imprensa, que cede espaço ao inútil e não ressalta o necessário.

Acuso você por estar perdido, por vociferar na internet sem ir para as ruas, por precisar de alguém que o guie, mesmo quando os bons valores gritam em seu peito.

Acuso a mim mesma por ter sido covarde e demorado a escrever este post, na esperança de um equilíbrio que jamais virá, pois é sinônimo de injustiça.

Acuso meu país de estar perdido, dividido, estilhaçado. De render-se ao samba, ao babado, à novela. De esperar sempre pelo dia seguinte e pelo salvador que virá.

Eu acuso.

Mas isso significa nada, se você não se juntar a mim. Se não acusar. Se não gritar, espernear, protestar, voltar a ser gente. Se aceitar a tristeza de ser o silêncio, seu próprio inimigo.

Nesse caso, não há acusações. Só o choro, baixinho, de quem se resignou a ser pouco, quase nada, esbirro e cinza.


Janaína Leite é jornalista, escritora, analista de política e economia e colunista da revista eletrônica Sociedade Pública [http://sociedadepublica.com.br/author/janainaleite/].