#AgoraÉQueSãoElas: Proteger a mulher que nos protege

Marco Aurélio Nogueira

07 Novembro 2015 | 11h01

Publico abaixo o texto da  pesquisadora Patricia Nogueira Pröglhöf, que toca num tema que não costuma frequentar as agendas de pesquisa, o noticiário ou os discursos governamentais. Fala, de modo contundente, do assédio que sofrem as mulheres que trabalham na Polícia Civil e Militar. Elas, que deveriam nos proteger, tornam-se também vítimas, muitas vezes invisíveis, a demonstrar que a violência contra a mulher não escolhe classe, profissão, idade ou setor.

O texto é muito bom e oportuno. Um retrato a mais da condição feminina no Brasil. Aproveitem-no e ajudem a divulgá-lo.

 

Proteger a mulher que nos protege

Por Patrícia Nogueira Pröglhöf

Não sou policial, e por isso, começo esse texto com a explícita afirmação de que talvez nunca seja capaz de apreender por completo o complexo universo em que hoje vivem mais de 70.000 mulheres brasileiras que dedicam suas vidas a garantir proteção e segurança para muito além de seus lares.

Como pesquisadora, no entanto, venho conhecendo nos últimos anos uma considerável parcela de dados, relatos e vivências que revelam as inúmeras dificuldades enfrentadas por essas mulheres em seus cotidianos e que muitas vezes restam escondidas por detrás de uma farda ou de um distintivo.

São dificuldades que começam já com o despertar de sua vocação: resistências nas famílias (que enxergam as profissões ligadas ao policiamento como essencialmente masculinas), processos de seleção inadequados (que por vezes exigem testes físicos para muito além do necessário às atividades da profissão ou impõem cotas que limitam o ingresso de mulheres), além de inúmeros obstáculos encontrados durante a formação daquela minoria que consegue ser aceita nas instituições de segurança pública.

E as dificuldades não param aí. Uma vez inseridas, as mulheres são muitas vezes encostadas em tarefas burocráticas, para permitir que o efetivo masculino se dedique às atividades de ponta, as quais exigiriam “bravura”, “força” e “coragem” (como se esses fossem atributos exclusivamente masculinos); ou são, no sentido oposto, alocadas em posições em que podem ser exibidas como a face humana e comunitária das corporações (reforçando estereótipos femininos de docilidade, mansidão e mediação).

Nesse cenário, são também inúmeros os relatos da violência de gênero vivenciada por essas mulheres dentro das organizações policiais e atestada por uma recente pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com o Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas da Fundação Getúlio Vargas.

A consulta, feita com ampla amostra de homens e mulheres de diversas corporações (polícia militar, polícia civil, polícia federal, polícia rodoviária federal, entre outras) revela que quase 63% das mulheres policiais já experimentaram pessoalmente comentários inapropriados ou sexuais no ambiente de trabalho (contra apenas 44% dos homens) e que 40% já foram vítimas de assédio moral ou sexual dentro de sua instituição de trabalho, sendo este número o dobro do vivenciado pelos policiais do sexo masculino.

Ressalta também a dificuldade encontrada por essas mulheres em dar vazão a tais situações: apenas uma entre cada 10 mulheres registrou algum tipo de queixa em relação ao assédio vivenciado. Na maior parte das vezes (68%), as que assim procederam ficaram insatisfeitas com o encaminhamento dado à denúncia.

Jogam contra elas, nessas situações, a falta de canais institucionais apropriados, o medo de perseguições ou retaliações (intensificado pelo fato de que este assédio, na maior parte das vezes, é praticado por um superior hierárquico) e, normalmente, a certeza da impunidade de seus agressores, blindados por uma lógica institucional incapaz de reconhecer a violência de gênero como problema concreto a ser enfrentado.

A consolidação da inserção das mulheres nos órgãos responsáveis pela segurança pública é, sem dúvida, uma conquista do período de nossa redemocratização que deve ser valorizada e ampliada. No entanto, como se verifica em tantos aspectos, inserção não é sinônimo imediato de inclusão e, muito menos, de mudanças estruturais.

Para avançarmos nesse sentido, é imprescindível que as instituições de segurança pública abram-se a uma discussão franca e transformadora sobre o machismo institucional – que, reproduzindo os valores da sociedade em que se insere, perpetua-se em suas regras e práticas – e sobre o papel e as condições de trabalho que reservam às policiais do sexo feminino.

Não sou policial, mas tenho a absoluta convicção de que mudar a forma como as corporações policiais enxergam e tratam as mulheres em seu interior é um passo indispensável no caminho de superar a violência de gênero e garantir segurança para todas as mulheres.


Patrícia Nogueira Pröglhöf é mestre em Administração Pública e Governo pela Fundação Getúlio Vargas e Coordenadora Institucional do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.