A volta do velho normal

A volta do velho normal

Se não há como convencer os negacionistas e a vida segue, o jeito é torcer para que as vacinas cheguem logo, sejam seguras e tenham distribuição igualitária.

Marco Aurélio Nogueira

08 de setembro de 2020 | 16h00

Praias lotadas, bares bombando, calçadas com gente por todo lado, congestionamentos nas estradas, ruas e avenidas. Aos poucos, o velho normal mostra a cara, embalado pelo cansaço, pela euforia ingênua, pela irresponsabilidade. É a vida de antes pedindo passagem, tendo as máscaras como adereço.

Ao menos na cidade de São Paulo, vê-se pouca gente sem máscara. Um ou outro carrega uma garrafinha de álcool em gel. Mantem-se uma distância prudencial, que com o correr das horas vai sendo flexibilizada. A noite é criança e quando chega traz consigo o relaxamento, o desejo de confraternizar e interagir. Nos transportes públicos falta espaço para se ter distância. É a vida louca em estado puro.

Fala-se que o pior já passou. Nas redes, muitos dizem que a liberdade é “sagrada” e que ficar em casa é conspirar contra a economia. Em nome disso, incentiva-se a quebra do distanciamento social e difundem-se informações distorcidas e manipuladas, soluções milagrosas e simplificadas.

Vacinas estão sob suspeita entre essas pessoas, que acham que o antídoto feito a partir do vírus inativado pode contaminar, carregar chips de controle e outras artes demoníacas.  É uma ignorância visceral, que despreza avanços científicos, repudia conhecimentos médicos e desconhece a história vitoriosa das campanhas de vacinação no Brasil.

Contra essa gente não há argumento capaz de persuasão. Tudo é misturado em um único pacote: a pandemia é uma ficção globalista, não é tão grave quanto dizem, a cloroquina é o melhor remédio, como comprova a família Bolsonaro, ninguém pode obrigar ninguém a ser vacinado, o governo brasileiro tem sido impecável no combate ao vírus, não se esquecendo de bater nos comunistas safados. Deveria sobrar algo para os políticos, mas a nova aliança de Bolsonaro com o Centrão tornou difícil a sustentação da narrativa. Idem com relação à corrupção, que já não incomoda como antes.

O velho normal se repõe ativando aquilo que vem se delineando há tempo. A sociedade é imperfeita porque seu passado permaneceu entranhado na vida cotidiana, amarrando os passos do progresso civilizatório. A falta de educação e escolaridade é brutal, a desigualdade ofende, o preconceito e o racismo estão mais vivos do que nunca, as elites permanecem de costas para o povo, o Estado protege os ricos e funciona pessimamente para a maioria da população.

Ontem, no discurso feito por ocasião do Sete de Setembro, o presidente da República reiterou seu amor pela Pátria e sua disposição de varrer as esquerdas, o comunismo, os democratas da face da Terra. Jogou para sua claque, mas liberou toxinas para toda a sociedade. A hipocrisia anda junto com a ignorância, envenenando a opinião pública.

Se não há como convencer os negacionistas, se os políticos continuam com o mesmo discurso de sempre, se esquerda e direita se copiam uma à outra e fazem campanhas que nada acrescentam, então, meus amigos, o jeito é torcer para que não haja uma replicação do vírus, as vacinas cheguem logo, sejam seguras e tenham distribuição igualitária.

O duro é pensar que os irresponsáveis, que a tudo combatem e se sentem acima do mal, terminarão por ser beneficiados pela imunização da maioria.

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