A violência política que nos atinge a todos

A violência política que nos atinge a todos

O próximo ciclo será de reorganização e reconstrução. Necessitará de inteligência técnica, serenidade, sabedoria política e capacidade de comunicação. No Estado e na sociedade.

Marco Aurélio Nogueira

10 Outubro 2018 | 16h20

As notícias se sucedem, com relatos assustadores de casos de agressão e morte, intolerância e discriminação. A violência ficou ostensiva, como nunca antes. Vem expressivamente de um dos campos da disputa eleitoral, e reflete uma situação social que ameaça extrapolar os limites do razoável.

Não basta Jair Bolsonaro dizer que “não controla seus apoiadores”. Não mesmo. Justamente por ter recebido 50 milhões de votos, ninguém tem mais representatividade para se dirigir aos seus seguidores e desautorizá-los. Ninguém tem mais força para se apresentar como alguém preocupado com a “paz social” e, sobretudo, com a desativação da bomba da violência política.

Até porque a partir dela ele não governará, caso vença o segundo turno.

Ela começa devagar, localizadamente, disfarçada pela crispação social e pela troca de acusações entre eleitores. Combina-se em seguida com demonstrações de força e agressões físicas, sempre mais veementes e carregadas de simbolismo.

Um belo dia, acordamos todos com a violência política batendo à nossa porta, ensanguentando as ruas do País, roubando oxigênio do debate político democrático e da convivência entre cidadãos que pensam de forma diferente e desejam viver em paz e liberdade.

O roteiro é conhecido e difícil de ser neutralizado. Sobretudo porque a violência que nos atinge está colada na vida cotidiana, no Estado, na polícia que mata em demasia, nos jovens largados à própria sorte, no tráfico. Sua expressão política “desorganizada” e “espontânea” dificulta a atribuição de culpas e responsabilidades.

A violência política é a porta de entrada de um turbilhão de condutas desagregadoras, sectárias. Tem um efeito pedagógico trágico, ao incentivar as pessoas a resolverem suas diferenças na base de facadas, porradas e caneladas. Corta o diálogo. Tem até mesmo um efeito estético, ao valorizar a grosseria no lugar da argumentação, a frase troncha e tosca no lugar do encadeamento lógico de razões, o insulto em vez da divergência ponderada.

Não vale dizer que o outro lado também pratica violência. Quem a comete deve ser igualmente criticado, punido, responsabilizado.

A violência política corrompe a cidadania e entroniza hordas de indivíduos sem dimensão moral, sem preocupação com o coletivo, gente que age de modo “tribal” mediante a disseminação do medo e da intimidação.

A estética da ala hard do bolsonarismo diz muito. Coturnos, uniformes, músculos, suásticas e armas ocupam o espaço que deveria ser povoado por bandeiras e palavras de mobilização e apoio. Não são atos gratuitos ou gracejos: são transmissores de mensagens de guerra.

Nenhuma comunidade política terá chances nesse clima. Dado o tamanho do buraco que se abriu à frente do Brasil, quanto antes as lideranças fizerem ouvir sua voz para condenar o irracionalismo que se oculta na violência política, melhor para todos.

O próximo ciclo será de reorganização, recuperação, reconstrução. Somente chegaremos inteiros ao seu final se houver inteligência técnica, serenidade, sabedoria política e capacidade de comunicação. No Estado e na sociedade.

Olhemos para frente. Com o desenho que terá o próximo Congresso, com sua fragmentação em bancadas de que não se conhece o perfil e o preparo, que Presidente conseguirá governar com um mínimo de critério, confiabilidade e firmeza? A pergunta não é retórica, especialmente quando se lembra que o programa de atuação de Bolsonaro ainda é uma especulação, ele próprio é “desorganizado”, não tem uma equipe de suporte, nem experiência administrativa.

Se ele, para além disso, não conseguir acalmar suas tropas, o pesadelo será inevitável.