A violência como corrosão

A violência como corrosão

Dizer que a posse de armas letais é necessária para que se seja "livre" é rasgar a bandeira a liberdade, da fraternidade e da igualdade. É instituir o império dos mais fortes.

Marco Aurélio Nogueira

12 de julho de 2022 | 10h33

Em condições normais, humanos não matam humanos. Hoje não vivemos em condições normais. O mundo que nos cerca é violento e cruel, está tomado por reações viscerais de variados tipos. A raiva e o ressentimento estão soltos.

As exceções são conhecidas. Humanos matam humanos em situações de guerra. Fazem isso quando impelidos por graves transtornos de personalidade e por perdas agudas de racionalidade, quando se deixam levar por pulsões passionais extremadas. Mata-se também em defesa própria. Ou por acidente. Fora daí, saímos do que é compreensível.

Terroristas matam movidos pela fé fanática. Governantes matam seu povo quando o deixam morrer de fome ou de doenças pandêmicas. Líderes políticos matam quando incitam seus seguidores à violência. Quando fingem não ver a violência ou a banalizam. Quando não mostram empatia. Quando não respondem por seus atos. A corrupção é uma forma de violência.

A violência é corrosiva. Destrói as bases da convivência. Produz dor e tragédia, perdas e danos. Encarna o Mal que tanto tememos. Atinge homem, cultura e natureza. Desequilibra, estraga, assusta, gera insegurança.

Não pode haver desculpa nem perdão para quem fomenta e pratica a violência.

Você é violento quando desmata ou descuida do meio ambiente. Quando despreza e massacra povos originários das florestas que derruba. Você é violento quando é grosseiro, quando usa as palavras como se fossem um punhal. Quando berra e agride em vez de argumentar e ponderar. Quando reduz o discurso a uma pregação passional desnecessária. Quando posa de macho para impressionar. Quando bate em pessoas mais fracas, frágeis ou desamparadas. Quando estupra. Quando é racista e discrimina os que são diferentes de você. Quando usa sua posição para maltratar, humilhar e adotar comportamentos que causam danos irreparáveis. Quando tortura mediante formas sutis de violência psicológica.

Você fomenta a violência quando diz que a posse de armas letais é uma condição de liberdade. Rasga a bandeira da liberdade, da fraternidade e da igualdade quando faz isso. Institui o império dos mais fortes.

A violência física é a forma mais degenerada de violência. Ela, porém, não cai do céu. Não é uma explosão casual. Tem motivos e razões terrestres, demasiadamente humanas, muitas vezes banais. Costuma ser incentivada por ambientes tóxicos, que, se não forem isolados, contaminam a sociedade toda. Quando isso acontece, a vida se desfaz, pode mesmo ficar perdida por muito tempo. A convivência – a vida coletiva, com suas interações – fica sob ameaça, em risco de dissolução, à beira da barbárie.

Quando a violência chega à política e se converte em arma de disputas ideológicas ou eleitorais, ultrapassa-se um limite precioso da civilização. A política não existe para que os conflitos sejam resolvidos à base da força. A violência política é a forma cabal da morte da argumentação, pode representar o fim de qualquer ação comunicativa. Faz sangrar a democracia.

O assassinato de Marcelo Aloizio de Arruda, tesoureiro do PT em Foz do Iguaçu, por um apoiador do presidente Bolsonaro, é injustificável. Não pode passar impune. Para o bem de todos. Para o bem da vida, da Justiça, da democracia.

O mesmo vale para ato repulsivo do médico anestesista Giovanni Quintela Bezerra, preso em flagrante pelo estupro de uma mulher durante uma cesariana em um hospital em São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

Não merecemos nada disso.

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