A pressão fundamental ainda não apareceu

Marco Aurélio Nogueira

27 de junho de 2017 | 20h08

Um presidente fraco, sem credibilidade e com apoio parlamentar flutuante, temerário, não tem como coordenar o processo político ou a dinâmica governamental. Sua governança e seus projetos de reforma ficam soltos, ao sabor de pressões e chantagens de todo tipo. O país (leia-se: a população) perde.

Mas é um equívoco dizer que sua crise e seu descrédito impedem a recuperação da economia e do emprego. É um equívoco que funciona como uma pressão a mais, puxando a corda para o lado dos “agentes econômicos” e dos rentistas. Por uma razão simples: a economia e a vida cotidiana são mais fortes do que a política e esta, quando em crise, gira em falso.

Michel Temer hoje não tem como governar. Sua dedicação está toda concentrada em salvar a própria pele. Virou uma figura decorativa, do mesmo modo que Dilma pouco antes do impeachment.

O pior é que tal situação pode se estender e o presidente chegar a 2018. A pressão fundamental — a das ruas, digamos assim — não tem porque se manifestar agora, com ímpeto e vigor. E isso precisamente porque a situação econômica não está piorando e até ensaia uma recuperação, com inflação baixa e juros cadentes.

As pessoas estão indignadas, machucadas e frustradas com promessas e expectativas que vieram lá de trás. Mas ao menos por hora não demonstram achar que o grito uníssono de fora Temer possa mudar alguma coisa. Desconfiam que do mato dos políticos que estão aí não sai cachorro nenhum. É uma espécie de cansaço cívico.

Não é um enigma, mas uma demonstração de paciência e sabedoria popular. Que os políticos fiquem com suas coisas, que eu vou cuidar de minha vida.

Pode ser triste e ruim para a democracia, mas ficou assim. Ao menos por ora.

Enquanto isso, aqueles que se acham bobamente a “consciência crítica da nação” correm o risco de pregar no deserto.