A Presidência improvável

Marco Aurélio Nogueira

12 de maio de 2017 | 16h37

Quando o PT, em 2010, aceitou a presença de Michel Temer como vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff não esperava que seu governo viesse a enfrentar problemas nem que pudesse sofrer o impeachment. Estava-se no auge de um projeto de poder que se imaginava destinado a durar para sempre, ou ao menos por um tempo bem elástico.

Deu-se ao vice o mesmo tratamento que costumam receber todos os vices, ou seja, um papel decorativo, protocolar, sem que se atentasse nem para a força e a voracidade do PMDB, nem para a sagacidade do próprio Temer.

O arranjo passou para o segundo governo Dilma e foi lançado no plano superior da política quando as coisas desandaram, em 2015. Temer se converteu assim, malgré lui e sua biografia, na ponta de lança da manobra que derrubou Dilma. Tornou-se um dos operadores principais do impeachment e, com ele, chegou à Presidência. Ficou então encarregado de levar o País para o outro lado do rio.

Agora, Temer comemora um ano no cargo, aí incluídos os cinco meses de interinato. Balanços estão sendo feitos, como de rito e costume. Falam que se trata de um período profícuo, que pôs na agenda algumas reformas decisivas e mostrou grande capacidade de controlar o Congresso, em que pesem certas dificuldades. Falam até mesmo que a recessão já passou, que a retomada é uma questão de tempo, que logo os 14 milhões de desempregados começarão a desidratar. A confiança teria voltado e o País estaria a um passo de se pacificar e de acertar as contas com a corrupção.

Devagar com o andor.

Temer será visto, no futuro, como um presidente que não se caracterizou pela capacidade de dialogar com a sociedade e de persuadir aqueles que nele não confiavam cegamente, que hoje são muitos. Um presidente congressual, concentrado no jogo parlamentar e na política miúda.

Seu primeiro ano mostra uma Presidência péssima em comunicação e um presidente travado, sem agilidade e interesse em interagir com os governados. Explica pouco, seduz nada, não se dedica a erguer uma plataforma de esperança para os brasileiros. Quer fazer avançar reformas amargas e impopulares sem convencer ninguém da validade intrínseca delas. O único argumento que utiliza é que sem elas tudo será muito pior. Bastar-lhe-ia conquistar o apoio de deputados e senadores, arrancado à custa de muitos artifícios, favores e pressão.

O artigo por ele assinado hoje no Estadão ilustra bem o tipo de comunicador que é Temer. Elenca serviços e realizações como se fossem evidentes e pudessem ser sentidos por todos, mas não é propriamente convincente, como se não lhe importasse a compreensão dos governados. Apesar disso, o texto reitera o que precisa ser a trava de sustentação do governo: “Não haverá vencedores num país em que as vozes plurais da sociedade não possam ser ouvidas e respeitadas. Chamei ao diálogo, à união”. Ao mesmo tempo, se esforça para sinalizar o rumo que almeja: “Nosso governo não é populista, mas tem sabedoria para melhorar os programas sociais sem comprometer a responsabilidade fiscal. Nossas medidas são populares porque vão beneficiar milhares de brasileiros, mesmo que o reconhecimento venha muito depois”.

Interessa-lhe não o aplauso do momento, mas um lugar na História.

Temer é de certo modo uma figura paradoxal. Não surgiu para ser presidente da República, não lutou eleitoralmente pelo cargo, chegou a ele por um acaso dos dados do jogo político. Um presidente improvável no calendário previsto e estranho ao modo como os brasileiros entendem a Presidência e seu ocupante. Mas, curiosamente, parece ter imprimido um estilo mais sereno, frio e opaco ao centro do poder político, o que não é pouca coisa neste País estraçalhado por crises, pela desigualdade e pela polarização – ingredientes que fazem com que a política seja consumida pela passionalidade, pela demagogia, pelo exibicionismo mais ou menos despudorado.  Não há porque criticá-lo por isso, muito ao contrário.

O governo Temer talvez seja, como falam seus defensores, aquilo que dá para se ter no difícil momento por que passa o País. Pode estar havendo mesmo uma “retomada da confiança na economia”, coisa que, no entanto, somente pode ser sentida pelos operadores do mercado. A agenda de reformas é indispensável e o governo acerta ao privilegiá-las.

Mas o teor das reformas em curso deveria ser mais bem discutido, ponderado, dosado, explicado. Não o sendo, elas até poderão ser aprovadas, mas a população continuará com a boca amarga e sem estar convencida de que seria pior sem elas.

A Presidência improvável de Temer poderá produzir bons resultados e fazer a economia começar a crescer novamente. Os governantes que vierem depois dele, em 2018, serão beneficiados pelos êxitos que eventualmente obtiver e deveriam, por isso, torcer para que ocorram.

Mas a sociedade dificilmente conseguirá aproveitá-la para se reencontrar consigo própria e formatar o futuro. E não por culpa de Temer.

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