A praga dos currículos fake

A praga dos currículos fake

A maquiagem curricular reforça o que há de falsidade na vida pública, no sentido preciso de falseamento da biografia.

Marco Aurélio Nogueira

07 de outubro de 2020 | 12h11

A moda pegou. Kassio Marques, indicado pelo Presidente da República para o Supremo Tribunal Federal, concluiu o doutorado há 11 dias, aos 48 anos de idade, mas tem no currículo 2 pós-doutorados, feitos em Messina (Itália) e Salamanca (Espanha). As informações são confusas e não estão claramente disponibilizadas pelas instituições.

No elenco curricular também estão incluídas pós-graduações que não existem ou não correspondem ao que elas significam. Ele se formou em direito na Universidade Federal do Piauí em 1994. Diz também ter feito mestrado na Universidade de Lisboa e uma pós-graduação em La Coruña. Pressionado, admitiu que esta última informação foi entendida errada por um “erro de tradução”, já que se tratou de um pequeno curso de cinco dias, que ele chama de “postgrado”.

Chama atenção a dedicação com que tantos homens públicos elaboram seus currículos. Abusam da coreografia, em busca de brilharecos que mostrariam “trajetória acadêmica”. Kássio Marques, no momento, está tentando convencer os senadores de que basta ter “notável saber jurídico”, obtido na escola da vida, para vestir uma toga do STF.

Na mesa, está a evidente tentativa presidencial de indicar um ministro que, tendo alguma avidez por fama e saliência, o ajude a proteger a família (e particularmente o filho senador) no Supremo. Donde tantos abraços e salamaleques presidenciais na turma de togados mais chegados a afagos e influências.

Mesmo com a carga e a resistência dos bolsonaristas-raiz, o nome deverá ser aprovado. Dadas as circunstâncias, não parece haver força unitária no Congresso que não seja a que é atraída pelo Palácio do Planalto. Além do mais, Kassio circula bem entre os políticos, que vêm nele um anteparo  “garantista” a mais contra a Lava Jato e o combate à corrupção.

O afã com que se anda maquiando currículos é triste. Contribui para reforçar o tanto que há de falsidade na vida pública,  no sentido preciso de falseamento da biografia.

É expressão de um Brasil que insiste em caminhar para o buraco.

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