A política sem eixo

A política sem eixo

Em clima de crise política, com poucas lideranças de perfil unitário e um governo refratário a entendimentos, o futuro ficou difícil de ser projetado.

Marco Aurélio Nogueira

04 de setembro de 2019 | 18h07

Com a morte do ex-deputado e ex-governador de São Paulo, Alberto Goldman (1937-2019), foi-se mais um político que faz falta enorme numa época em que escasseiam lideranças democráticas que atuem com perspectivas construtivas.

O reconhecimento da relevância de Goldman resgata um eixo da política brasileira – sobretudo a que se desenrolou com o combate à ditadura – que parece ter ficado perdido no tempo, esquecido pelas novas gerações, treinadas pela ideia da política como confronto, atrito e distinção. Recordá-lo pode nos ajudar a refletir sobre alguns dos dilemas atuais.

A perspectiva unitária facilitou sobremaneira a ultrapassagem do período ditatorial. A ideia de uma frente democrática das oposições progrediu aos poucos, em meio a resistências e leituras equivocadas do processo político. Tornou-se vitoriosa quando a emenda das eleições diretas para presidente foi derrotada, em 1984, armando-se então, como resposta, a vigorosa articulação de centro-esquerda que abriu caminho para a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em janeiro de 1985. A Aliança Democrática, por sua envergadura e pela atuação de seus principais expoentes, aplainou o terreno para que se chegasse à Constituição de 1988 e, por fim, ao retorno das eleições diretas para presidente, em 1989.

Paradoxalmente, a perspectiva unitária perdeu vigor com o avanço da democratização. A pouco e pouco, a política foi-se deixando levar pela afirmação unilateral de posições particularistas, concentradas na conquista de poder e não na organização da democracia. Foram sendo abandonados os critérios básicos da construção democrática vitoriosa nos anos 1980: a negociação, a tolerância, a busca de entendimentos entre os partidos, as coalizões reformadoras, em suma, a unidade dos democratas.

O clima de progressiva beligerância foi-se agravando e assumiu a forma de luta de todos contra todos. A dispersão cresceu. O multipartidarismo cedeu espaço para a fragmentação partidária; os grandes partidos (PT, PSDB, PMDB) foram engolidos pelas bancadas temáticas; os políticos agarraram-se com fúria às disputas eleitorais, despedaçando o que dera eixo à democratização.

O resultado foi, antes de tudo, a inviabilização da inflexão social-democrática que despontara como possibilidade concreta na segunda metade da década de 1990. O País enveredou por uma trilha de crescimento econômico sem sustentabilidade e de desenvolvimento social inexpressivo.

A segunda consequência foi o surgimento de uma direta extrema, agressiva, desinteressada da democracia, que, aos poucos, assumiu caráter artificialmente patriótico e nacionalista, caricato, grosseiro, promotor da ignorância, para ir capturando segmentos inteiros da sociedade que se haviam desencantado com os tropeços do reformismo democrático.

Quanto mais o campo democrático se dividiu e viu suas alas entrarem em franco desentendimento, mais a direita extrema encorpou e ganhou autoconfiança. A disputa sem critérios programáticos e sem pruridos levou a que a corrupção e a inoperância política se convertessem em alvo prioritário da opinião pública. A entrada em cena do Ministério Público Federal, com uma perspectiva moralizante que não soube separar a política “suja” da política “limpa”, criminalizou a atuação política e aumentou o afastamento dos cidadãos. Os partidos murcharam como agentes e protagonistas. As redes tornaram-se terra de todos e de ninguém e o ambiente virtual foi sendo envenenado pela radicalização dos discursos, pela circulação de notícias falsas, pelas novas demagogias ideológicas.

O ápice do processo foram as eleições de 2018, que explicam em grande medida o estágio deteriorado em que nos encontramos hoje.

O País encontra-se hoje atarantado, sem saber o que o aguarda no futuro imediato. Falta governo, falta articulação política, faltam ideias e programas de ação. A sociedade civil pulsa e se movimenta, mas não consegue ir muito além, em que pesem as importantes iniciativas que toma. Ela própria se ressente do vazio de lideranças.

A crítica às oligarquias partidárias e aos políticos profissionais não tem sido acompanhada por uma reflexão consistente sobre a qualidade da democracia e a reforma da política. O ativismo tensiona a política, imagina equivocadamente substitui-la, mas pouco produz de efetivo.

Não se trata, evidentemente, de uma via sem saída. Existem múltiplos espaços de ativação democrática a serem explorados. As “escolas de cidadania” criadas por certos movimentos cívicos podem dar sua contribuição. Mas a chave do sucesso continua, como sempre, no colo da política e de seus agentes principais, os partidos e os representantes do povo. O dilema é saber quando surgirão lideranças políticas que preencham o vazio deixado pelas gerações anteriores.

Formado na escola do Partidão, Goldman foi um articulador em tempo integral, um político de posições claras e grande disposição para o diálogo. Defendia com firmeza suas convicções, sem receio de caminhar contra o vento ou mudar de opinião. Nunca foi um esquerdista, convencido que estava do caminho social-democrático. Sua militância política, transcorrida sob as legendas do MDB, do PCB e do PSDB, apontou sempre para a valorização da democracia e a unidade dos democratas.

O estilo de política que ele encarnou, porém, não conseguiu ser assimilado pela sociedade que emergiu da vida líquida, rápida, digital, em rede. Por um lado, porque a política permaneceu analógica, sem se atualizar. Por outro, porque partidos e políticos foram empurrados para a defesa estreita de seus próprios interesses.

Comprimiu-se assim o espaço para uma centro-esquerda ativa e articulada. Como observou o sociólogo Sergio Abranches em recente entrevista concedida ao Estadão, “o PT está na sua própria crise e não consegue formular uma nova posição, mais contemporânea e alinhada com os desafios do século 21. Há uma parte importante da centro-esquerda sem representação. Com a polarização, o PT foi empurrado para uma esquerda de posições retrógradas, que já deveria ter abandonado. Já outros partidos foram sendo puxados para a direita”. Ficou dramaticamente dificultada a emergência de um centro moderado, “com uma visão mais social, um posicionamento contemporâneo, reformista, que tenha consciência da crise do emprego, dessa nova economia, que entenda que a globalização é inevitável e que o mundo hoje é mais cosmopolita”.

Em clima de crise política, com poucas lideranças de perfil unitário e um governo refratário a conciliações e entendimentos, o futuro ficou difícil de ser projetado.

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