A política, o sistema e a coruja de Minerva

Marco Aurélio Nogueira

06 de maio de 2016 | 14h43

A crise está aí, ostensiva, estrutural, exibindo sua pujança e arrastando seu saco de maldades.

Seu centro não é a economia, que vai mal mas não é determinante, por mais que sirva de base e pretexto para muita coisa. É a política: o sistema, as regras e sobretudo o modo de fazer política, a cultura política. Estão todos tão impregnados das toxinas emitidas pelo sistema que nem sequer conseguem olhar o fundamental. Os que olham, não sabem o que fazer.

Acreditar que um novo tempo começará com o afastamento de Dilma é ingenuidade; dizer isso é tentar criar ambiente. Haverá muito mais continuidade do que ruptura na transição que ocorre no mundo político. É a mesma elite política, a mesma turma que estava com Dilma e que agora seguirá Temer. Seu limite está dado pelo fato de se fazer sem sintonia com a transição que transcorre no mundo social e que explode nas casas, nos locais de trabalho, nas escolas e nas ruas de alguns anos para cá.

O impedimento de Dilma significa essencialmente a abertura de uma nova oportunidade, que poderá ou não ser aproveitada. Tentativa de acionar um freio de arrumação: reacomodar os interesses e as forças políticas, cuja diáspora levou à morte o governo petista, impedindo-o de governar. Podemos achar que tudo foi desencadeado por um “golpe” e que as impressões digitais de Eduardo Cunha estão por todo canto, mas a verdade é que boa parte da diáspora foi provocada pela incapacidade política de Dilma e pelas falhas operacionais, de compreensão e de atitude do próprio PT. A outra parte decorreu do sistema, que, de resto, foi cortejado e nutrido incansavelmente pelos governos petistas. Um belo dia o feitiço virou contra o feiticeiro.

Partidos sanguessugas e sem firmeza, parlamentares paroquiais e de perfil baixo, disputas doentias por cargos e indicações, mixórdia de interesses regionais e corporativos, carência de lideranças com envergadura política e consistência técnica, um discurso político miserável, um arcabouço legal impreciso, cheio de lacunas e de difícil tradução. É um sistema que asfixia e oprime qualquer governante, que impede operações banais como a de formar um ministério de “notáveis”, ou ao menos de boa qualidade. Não dá livre curso à soberania popular, não a representa no sentido preciso da expressão, ainda que os ecos das ruas se façam sentir no plenário. Os representantes seguem mais as fumaças do poder, que muitas vezes chegam a inebriá-los.

Tudo isso passará de armas e bagagens para um eventual governo Temer. Não há como impedir que isso ocorra, especialmente sendo o vice-presidente o político que é, acostumado a maneirismos, equilíbrios e contorcionismos permanentes. Ele foi lançado ao primeiro plano pelo próprio PT e manterá viva a mesma rotina que conhece tão bem. Só poderia agir diferentemente se estivesse imbuído de uma compreensão profunda do papel que o momento histórico lhe está a reservar e tivesse a seu lado forças mais conscientes de si.

Teremos de aguardar um pouco para saber o que haverá de ruptura neste quadro marcado pela continuidade. A política está sempre a criar fatos e alternativas.

Os aliados e os torcedores do PT hoje estão a esfregar as mãos: vamos sair, mas os primeiros esboços do governo Temer provam o que sempre dissemos. O “golpe” será plenamente revelado quando vier à luz o novo governo, que será tão ruim ou pior que o de Dilma. Agora, com o afastamento de Cunha pelo STF, reforçaram a tese de que o processo contra Dilma não somente foi um golpe, mas também estaria “maculado e manchado” desde o começo, já que movido pela chantagem de um político condenado. Faremos a nossa via crucis, dizem, mas levaremos conosco um bom estoque de molotovs e bolinhas de gude para atrapalhar a vida de Temer. Quem sabe assim não voltaremos a crescer? Quem sabe assim não desopilaremos o fígado?

Tal posicionamento traz uma dose de verdade. Ele reconhece que o sistema tem força e tenderá a abraçar Temer do mesmo modo que o fez com Dilma. Com o diagnóstico, porém, leva-se Dilma à mesa de sacrifícios: por que ela — que governou nos ombros de milhões de votos, contava com um partido bem estruturado e era apoiada por vigorosos movimentos sociais — nada fez para enfraquecer o sistema ou mesmo reformá-lo? Por que desdenhou da Fortuna e jogou fora a oportunidade que se lhe foi oferecida?

Os petistas hoje magoados e ressentidos não deveriam esperar de Temer — precisamente por ser Temer quem é — aquilo que eles próprios jamais se propuseram a realizar. Farão isso, porém, sorrindo amarelo pelos cantos, porque é da natureza dos ressentidos agir desta maneira. Mas nem todos os petistas são assim, e entre eles há certamente os que estão se esforçando para traçar os rumos do amanhã, realisticamente e sem ilusões.

Da outra margem do rio, entre os apoiadores de Temer, entre os que fizeram do antipetismo o mantra preferido, entre os que estão tomados pela esperança ingênua, confluem águas variadas, turbulentas, que ninguém sabe bem que rumo tomarão.

Lá na frente, quando a História estender seus véus sobre os homens e a coruja de Minerva finalmente puder alçar voo, todos terão de reconhecer e assimilar os erros cometidos.