A política como maldade e grosseria

Bolsonaro insiste em agredir e demarcar um território suficientemente batido e definido, como se fosse preciso reiterar sua hostilidade às esquerdas e seu desinteresse em se comportar como estadista

Marco Aurélio Nogueira

30 de julho de 2019 | 16h13

É espantoso e chega a ser repulsivo que um presidente da República, do alto de sua investidura, fale o que Jair Bolsonaro falou sobre a morte de Fernando Santa Cruz, militante da Ação Popular morto em 1974 em pleno regime militar, insinuando saber detalhes de sua morte.

Antes de tudo, porque fez isso com a clara intenção de agredir e intimidar o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, filho do militante assassinado. Valeu-se da crueldade e da covardia para acuar um adversário da sociedade civil, demonstrando rara falta de empatia e compaixão. Ignorou e desrespeitou decisões dos próprios órgãos do Estado, chegando ao cúmulo de questionar a seriedade e a legitimidade da Comissão da Verdade, que apurou crimes cometidos durante a ditadura. Para ele, não haveria razões para de “acreditar” nessa Comissão e nem na Comissão de Mortos e Desaparecidos. Os documentos por elas emitidos não passariam de “balela”.

Assim como quem não quer nada, de supetão, o presidente desprezou a Constituição e fez pouco caso da Lei de Anistia. Pisoteou, também, o saber historiográfico que já documentou os fatos do período ditatorial. Não acatou nem sequer o atestado de óbito recém-lavrado pelo Ministério da Família e dos Direitos Humanos que certifica que Fernando Santa Cruz morreu “de causa não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”.

As declarações demonstram que Bolsonaro ainda não processou o passado, que ele idealiza ao bel-prazer, mastigando fel, olhando para trás, negando-se a virar a página de um período que não orgulha o Brasil. Sua visão do passado habita as mesmas cavernas onde repousam seus piores demônios internos.

Tudo indica que o presidente disse o que disse com o propósito de agredir e demarcar um território já suficientemente batido e definido. Como tem ocorrido com frequência compulsiva, buscou se reapresentar como um líder hostil às esquerdas, autoritário, desinteressado de dialogar e incapaz de se comportar como estadista.

Insistir em reiterar uma imagem já fixada no imaginário popular é exibir grave insegurança existencial.

Não é aceitável que o presidente se comporte como se estivesse em uma pelada de futebol ou num ringue de MMA, com o agravante de não acatar nenhuma regra. Sua atitude deslustra a República, rasga a Constituição que jurou respeitar e envergonha o Estado brasileiro perante o sistema internacional.

Resta saber se Bolsonaro disse o que disse em decorrência de uma falha cognitiva, de uma pulsão maléfica, ou se houve no ato algum cálculo estratégico. A impressão é que se tratou de uma combinação das duas coisas. O presidente quer fazer política pela via da maldade e da grosseria, deixando à solta os piores traços de sua personalidade, como se não quisesse controlar seu instinto animal.

A persistir nesse padrão de conduta, seus dias na Presidência serão manchados de sangue e fúria, e nada trarão de bom para o País. Serão um pesadelo, do qual levaremos um tempo para nos libertar.

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