A Pátria insensata

Em condições de pandemia, o irracionalismo criminoso é um verdadeiro desastre e tira o brilho que se deseja dar ao Sete de Setembro.

Marco Aurélio Nogueira

07 de setembro de 2020 | 10h14

Que sentido pode haver em um presidente que se diz “patriota” mas não possui qualquer ideia articulada de Pátria? Que afirma defender “o nosso amado Brasil” mas pouco se importa com mortes por doenças que o Estado está obrigado a combater? Como é razoável que se fale em amor à Pátria, cujo Sete de Setembro é data referencial, sem que se tenha amor pelo povo, pela decência, pela democracia?

Nada disso faz sentido, mas o Brasil está aprisionado em uma situação na qual o presidente da República usa a ideia de Pátria para manipular. Faz da Pátria um conceito retórico, empregando-o para insuflar seus seguidores e estigmatizar adversários.

Jair Messias Bolsonaro nunca foi patriota. Foi expulso das Forças Armadas, instituição que se vangloria – com maior ou menor razão – do patriotismo que organiza suas fileiras e pauta sua missão no território nacional.

Sobretudo hoje, não pode haver ideia digna de Pátria sem o ideal de convivência entre os povos. A mundialização da experiência humana, a internet, as redes impedem que as pátrias sejam vistas como ilhas, territórios isolados, cercados por muralhas inexpugnáveis. Mostram que, ao contrário, somente podem frutificar e, eventualmente, proteger de forma adequada seus integrantes se forem compreendidas e vividas como espaços de compartilhamento e cooperação com os povos do mundo.

Não defende a Pátria um governo que segue como cordeiro uma potência estrangeira, submetendo-se as suas vontades, copiando os trejeitos e manias de seus poderosos, servindo-lhes de escudo e plataforma para a disseminação de venenos tóxicos para dentro e fora dos próprios espaços nacionais.

É perversa a Pátria que discrimina e separa, que fomenta preconceitos e perseguições, que rejeita e rebaixa o estrangeiro, dando-lhe tratamento inferior e impedindo sua livre circulação. A xenofobia é a pior doença do patriotismo, é o patriotismo intoxicado por seus absurdos.

É imperfeita uma Pátria que se apoie na valorização unilateral das liberdades individuais, como se o indivíduo fosse irresponsável diante do bem-estar coletivo, uma mônada fechada em si, desinteressada da comunidade. Este tipo de “liberdade” não encontra guarida em nenhuma corrente do liberalismo, do republicanismo ou do democratismo, pois não defende a liberdade efetiva, reflexiva e responsável. Patriotismo desse tipo instrumentaliza o egoísmo, lançando-o no furor das paixões irracionais, no ódio contra inimigos imaginários, no desprezo pela paz e pela harmonia.

É omissa e não patriótica a Justiça que assiste impassível à exibição recorrente de irresponsabilidade criminosa do presidente da República, que vai do menosprezo pelo vírus letal ao boicote às ações sanitárias, do ataque a jornalistas à difusão de mentiras em cascata.

Quando o presidente e sua Secretaria de Comunicação falam que “ninguém pode obrigar ninguém a tomar a vacina”, com anuência do ministro da Justiça, estão a fazer simplesmente a propaganda grosseira da irresponsabilidade que tem caracterizado a conduta governamental. Cometem um crime, que precisaria ser denunciado e punido. Atentam contra a saúde pública, a saúde de todos os cidadãos.

Não há por ora um movimento antivacinas no Brasil e a batalha pela vacinação vem sendo há décadas uma tarefa do Estado e das instituições sanitárias. Indiferente a isso, o governo atual estimula a desconfiança, nega a ciência, fomenta uma imagem de que as vacinas seriam perigosas e trariam consigo o mal, não o bem, o demônio da manipulação genética, interesses estrangeiros preocupados em invadir o País.

Um arrazoado de bobagens reacionárias, que já produz efeito na população, como ficou evidenciado pela pesquisa Ibope recentemente realizada.

É assustador ficar sabendo que 1 em cada 4 brasileiros resiste à vacina contra a covid. Há mesmo quem ache que ela escravizará os que a receberem, pois manipulará o DNA e conterá chips de controle da população. Outros falam que ela será feita com fetos abortados. Os mais moderados dizem que ela pode não ser segura.

A pesquisa indica que a grande maioria das pessoas (75%) disseram que tomarão a vacina com certeza, mas que 20% afirmaram que talvez tomem e 5% relataram que não receberão o imunizante de jeito nenhum. Há, portanto, um quadro de incerteza e desconfiança, que deveria ser combatido pelo governo, não incentivado.

A ignorância anda de mãos dadas com o vírus.

Enquanto isso, os bolsonaristas invadem as redes com desinformações em cascata e o capitão posa de patriota. O barato deles, além de denúncias à China e ao globalismo, é a apologia da liberdade individual, pensada como indiferente à segurança e ao bem-estar coletivo.

Como escreveu Vera Magalhães, o patriotismo dessa gente é de fancaria. Uma farsa com todas as letras, proclamada com segundas intenções.

O irracionalismo de tais posturas escandaliza, e não fica a menor nem sequer se se achar que o governo deseja confundir os espíritos, bagunçar a opinião pública, desviar o foco para que não se veja sua própria incompetência. Trata-se de um irracionalismo completo, abrangente, criminoso.

Em condições de pandemia, é um verdadeiro desastre. Que só nos empurra para trás e tira o brilho que se poderia querer dar ao Sete de Setembro.

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