A morte de uma ideia de País

A morte de uma ideia de País

Presidente não leva a sério a vacina, explora a ignorância popular e produz desconfiança

Marco Aurélio Nogueira

16 de dezembro de 2020 | 13h23

Foto Peia S. Dias

Três vetores nos ajudam a compreender o descalabro a que se assiste no País quanto à pandemia, que chegou a seu mais alto nível agora em dezembro.

O primeiro é, evidentemente, a capacidade de replicação do vírus, que se expande e se dissemina com grande rapidez, pulando fronteiras de raça, classe, bairro e escolaridade.

O segundo, que enche as páginas da crônica política desde 2019, é formado pela irresponsabilidade e pela incúria do governo federal, cuja presidente não só se mostra despreparado para o cargo que ocupa como insiste em exibir esse despreparo dia após dia, misturando-o com pregações ideológicas rasteiras, miséria ética e desinteresse pelo outro. Não é um coquetel feito ao acaso, há cálculo nele, tanto que o presidente continua a exibir índices bem razoáveis de aprovação e consegue ditar ao menos parte da agenda nacional.

O negacionismo presidencial já virou um case entre nós. Ele não se importa com a pandemia, está se lixando para o efeito do vírus e ergueu bem alto a bandeira do antivacinismo em seu território, de onde influencia a população. Ainda ontem, em entrevista à Band TV, não deixou por menos: “como eu nunca fugi da verdade, eu digo: eu não vou tomar a vacina. Se alguém acha que a minha vida está em risco, o problema é meu e ponto final”.

É um convite explícito a que se desconfie da vacina. No dia anterior, Bolsonaro falou em vincular a vacinação à assinatura de um “termo de consentimento” pelos cidadãos, algo que não faz sentido e amplia a desconfiança. No dia seguinte, sem máscara, participou do lançamento do plano nacional de vacinação contra a Covid-19, ao lado do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, igualmente sem máscara. O vai-e-vem faz parte do cálculo, revela um presidente descentrado, sem foco.

O terceiro vetor, mais complicado de ser decifrado, é composto pela ingenuidade, a ignorância e a desinformação da população brasileira, em parte derivadas da má formação educacional, em parte cozinhadas no caldeirão da ancestralidade da cultura nacional.

Sempre nos orgulhamos de nós mesmos como povo-nação. Admiramos a capacidade de sobrevivência e adaptação do brasileiro, acima de tudo um forte, sua vontade de viver, sua alegria, sua facilidade de comunicação. Nossa riquíssima produção artística tem origem popular, nos enche olhos e corações. É verdade que jaz no fundo desse substrato uma teia de horrores, que contradiz nossa autoimagem positiva mas que imaginamos estar represada nos cafundós, recantos dos brasileiros violentos, autoritários, conservadores, caladões, de poucos amigos, desconfiados de tudo e todos.

Acontece que a sociedade como um todo não evoluiu como imaginávamos que faria. Talvez tenha ficado travada pelo próprio modo de agir, pensar e sentir típico da nacionalidade e que a pouco e pouco se reproduziu a partir dos cafundós. Com isso, parcelas expressivas do povo ficaram impedidas de se apropriarem de conhecimentos e recursos indispensáveis à vida moderna.

Continuamos sendo Jeca Tatu e Macunaíma numa época que exige muito mais do que malandragem, malícia e improviso. Nossas lendas fundacionais – o brasileiro bom, pacífico, sempre aberto ao estrangeiro, mais chegado ao “talento inato” do que à disciplina e ao estudo – já não nos servem mais, se é que serviram alguma vez.

A ignorância se cristalizou a ponto de milhões de brasileiros duvidarem de médicos e pesquisadores, terem medo de vacinas e enfrentarem de peito aberto um vírus sabidamente mortífero. Não usar máscaras e continuar comparecendo a festas, aglomerando-se gratuitamente, vira um tipo de fermento, legitimado pela ideia de que se está cansado de tanto confinamento e de que há presentes para comprar. Morrer faz parte do viver, tanto mais quando são escassas as esperanças. Faz-se assim uma opção inconsciente pela morte.

A “boçalidade contagiosa” registrada por Vera Magalhães em sua coluna avança, entre nós, por uma via de mão dupla. Espalha-se de cima para baixo, impelida por um presidente que é ele próprio um vírus, e difunde-se também de baixo para cima, como alimento que reforça, excita e sustenta a primeira boçalidade. Ou haveria outro modo de explicar o apoio de que continua a desfrutar o presidente?

Recusar o distanciamento social e a vacinação é só um dos problemas. O outro, muito mais grave e complexo, é saber como evitar que mais mortes continuem a nos destroçar.

Não serão somente alguns milhares de brasileiros os dizimados. Será um País inteiro, uma ideia de País.

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