A marcha da insensatez

A cada manobra golpista do presidente, a cada provocação por ele feita, a cada ação estapafúrdia e criminosa de seu governo, mais cresce o conflito e aumenta o número de cidadãos indignados e sensatos.

Marco Aurélio Nogueira

14 de junho de 2021 | 15h31

Foto Peia S. Dias

Ela caminha impune pelas ruas, infiltra-se pelas casas, pelos campos, pelos becos escuros e pelas praças. Pega carona em motos, cavalos, aviões, iates e jet ski. Vem de baixo e chega aos cumes da sociedade, espalhando-se como gás tóxico, que envenena, embrutece e paralisa.

É alimentada diariamente, incansavelmente, por um presidente desprovido de qualquer qualidade de estadista, que vive cercado de sabujos sempre prontos a obedecê-lo, de seguidores cegos pelo fanatismo delirante, encantados por uma ideia tosca de líder e “mito”.

A insensatez é alimentada pelo presidente e por essa trupe, mas não nasceu com ele nem foi inventada por ele. Em boa medida, o precede e encontra nele seu mais destacado representante. Manifestou-se de modo pleno em 2018, quando 50 milhões de eleitores o sufragaram nas urnas.

O presidente é filho da insensatez que grassa nas dobras de uma sociedade que não amadureceu culturalmente, intelectualmente, que foi contaminada pela falta de educação, pela desvalorização da escola, pela ausência de pensamento crítico e mentalidade cívica, pela escassez de igualdade, respeito e reconhecimento. Uma sociedade que cresceu disforme, mergulhada em abismos sociais obscenos e desprovida de elites com grandeza nacional. A insensatez se tornou companheira de viagem de milhões de brasileiros.

O presidente bebeu dessa fonte maligna, fez dela seu mecanismo operacional, a referência de seu gestual agressivo, entronizou-a no governo. Conseguiu isso por ser ele próprio um insensato, há três décadas expulso do Exército por mau comportamento e que, dedicado à atividade parlamentar desde então, jamais proferiu um discurso razoável, concatenado com a lógica, jamais fez algo de bom ou útil para o País. Hoje está entregue à tarefa de demolir a democracia e as instituições republicanas.

Acontece que, ao lado da insensatez, também marcham brasileiros sensatos, cansados da guerra, enojados da conduta presidencial, que choram seus mortos e suas desgraças, preocupados com a recuperação da autêntica “alma brasileira”, a da cordialidade, do diálogo, da convivência de todos com todos, da mistura étnica e racial, mesmo que escondendo, em cantos ocultos e disfarçados, manifestações de preconceito surdo, machismo e discriminação. Há uma massa de brasileiros desejosos de uma nova forma de governo, de uma política feita com substância e ética pública, da criação de um clima de cooperação e interação democrática que traga de volta a confiança, a tranquilidade e uma perspectiva de progresso.

A insensatez cria os próprios anticorpos que a neutralizam e terminarão por vencê-la. A cada manobra golpista do presidente, a cada grosseria cuspida nos microfones, a cada ataque autoritário e a cada provocação por ele feita, a cada ação estapafúrdia e criminosa de seu governo, mais cresce o conflito e aumenta o número de cidadãos indignados e sensatos. Como bem observou o cientista político Carlos Melo no Estadão, a conduta insana do presidente “desperta, assim, seus maiores inimigos: o esclarecimento e a unidade”.

É de se prever, portanto, com as lentes otimistas da esperança, que as tensões criadas pela insensatez não terminem em tragédia e impulsionem a elaboração de um programa consistente de “recomposição do nervo ético e político perdido, a superação do caos”. Basta um esforço firme das lideranças democráticas, uma compreensão da gravidade do momento e a suspensão das animosidades entre elas, para que a luz da esperança passe a brilhar sem tremulação, ganhando intensidade progressiva.

Algo para se acompanhar. É nos piores momentos que as lideranças ganham densidade, sobretudo na política.

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