A hora de Ciro

A hora de Ciro

Há órfãos políticos em excesso entre os eleitores. A disputa se converteu em ato plebiscitário alimentado pela rejeição recíproca.

Marco Aurélio Nogueira

06 Outubro 2018 | 12h23

Espaço há, mas é estreito e está congestionado. Para Ciro Gomes, terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto, é o passo derradeiro. Se der certo, provavelmente chegará à cadeira presidencial. Se der ruim, tudo leva a crer que será o ocaso de uma longa carreira política.

Ciro tem experiência suficiente para saber disso. Deve estar acompanhando, com satisfação e otimismo, a movimentação que tomou conta das redes desde o meio da semana, propondo um esforço final para escapar da polarização Bolsonaro x PT, tida por milhões de brasileiros como nefasta, um bólido que pareceu adquirir vida própria e que muito pouco oferece de propostas e perspectivas razoáveis, democráticas e republicanas antes de tudo.

Há órfãos políticos em excesso entre os eleitores. O que surgiu como uma grande oferta de postulações, com mais de dez candidatos e um grupo deles bem competitivo, afunilou-se com o andamento da disputa, que se converteu em ato plebiscitário alimentado pela rejeição recíproca.

É contra esse estado de coisas que o #ViraCiro se opõe. Nos últimos dias, foi ganhando apoios e abalando lealdades antes categóricas. Alckmin e Marina perderam votos, com certeza. E até eleitores petistas passaram a fazer outros cálculos, baseados na ideia de que Haddad “não terá energia para derrotar Bolsonaro”, como disse Ciro hoje, seja porque chegará desgastado ao segundo turno, seja porque o antipetismo vibrará com intensidade adicional.

O Brasil atingiu um ponto perigoso de saturação e desorientação. Os partidos desapareceram, as organizações mais fortes  não souberam lidar com suas próprias contradições e com os erros graves que cometeram. Há um déficit assustador de lideranças políticas e estadistas. Não há um projeto nacional que forneça diretrizes para os cidadãos. O maniqueísmo passional prevalece, misturado com ignorância, falta de informação e manipulação barata por parte dos candidatos. Os governos governam pouco e mal.

Olhando com cuidado, o cenário que se descortina é de horror. A corrupção, a insegurança, a violência cotidiana, a desproteção dos mais frágeis, a miséria e a pobreza, as discriminações e os preconceitos, a recessão econômica e a desorganização do mundo do emprego, o atraso educacional assustam a todos, sem conseguir receber respostas.

A política está falhando gravemente. Por limitações de seus atores, pelos ataques que têm recebido, pelo abandono social, pela judicialização e pelos excessos do Judiciário. Pelas ressonâncias da época histórica em que vivemos.

Salvo em um ou outro momento, as campanhas eleitorais desse ano foram trágicas, patéticas. Candidatos ruins, pouco à vontade, sem energia cívica na veia, com uma ou outra exceção pontual. Nada de concreto foi oferecido pelos que se mostraram mais competitivos. Os que lideram as pesquisas, Bolsonaro e Haddad, buscaram se viabilizar explorando ícones e mitos que iludem os cidadãos, os mantêm aprisionados a um imaginário regressista. Alimentaram-se um ao outro o tempo todo, criando uma gangorra funesta baseada em formas complementares de rejeição, o antibolsonarismo e o antipetismo. Nada de bom poderá resultar do embate entre eles.

Marina, Alckmin e Ciro se diferenciaram, por motivos diversos, com estilos e metas particulares. Marina e Eduardo Jorge formaram uma dupla irretocável, com uma ideia clara de país do futuro. Ciro apresentou boas ideias e soube aparecer como alternativa, mesmo tendo sido prejudicado na largada pelas opções feitas por Lula e pelo PSB.  Alckmin exibiu capacidade administrativa, sensatez e domínio do roteiro a seguir.

O antagonismo entre os extremos míticos, porém, liquidaram com as chances de todos eles. E eles mesmos não souberam construir articulações unificadoras, que lhes dessem nervos e músculos.

Mas estamos tratando de política. E, nela, o jogo só termina quando acaba. Sempre haverá um último esforço a ser tentado. Hoje, na véspera de uma eleição complicada, cheia de incógnitas e temores, a meta de muita gente é evitar a polarização suicida entre Bolsonaro e o PT. O Brasil precisa escapar desse cerco que amarra e sufoca o futuro.

O caminho do meio hoje passa por Ciro Gomes, que conseguiu se infiltrar no pelotão de cima e mostrou possuir propostas e disposição para repactuar os brasileiros, virando uma página da história.

Muitos estão agora a apostar em Ciro, movidos pela razão democrática e pela convicção de que o futuro sempre depende de escolhas que são feitas em momentos delicados.

Todos sabem que não está dado que a aposta será vitoriosa. Mas pensam que é preciso tentar, convencidos de que princípios coerentes, valores generosos e articulações amplas são o que de melhor temos para desarmar ódios e disputas infrutíferas, agregando energias para um trabalho de reconstrução que exigirá bastante de cada um de nós.