A guerra ideológica da “Escola sem partido”

A proposta destina-se a agitar e a intimidar. Sua meta é desorganizar o ambiente escolar

Marco Aurélio Nogueira

13 Novembro 2018 | 17h38

Todo mundo já falou do tema, principalmente para alertar contra a sua improcedência. Mesmo assim ele não sai da agenda, impulsionado pela tentativa contumaz de fazer aprovar uma legislação específica para coibir a “doutrinação” nas escolas.

A “Escola sem partido” é uma insensatez, não tem pé nem cabeça. Tem servido para agitar os ambientes escolares e sensibilizar a opinião pública, que termina por ser levada a acreditar que as escolas são dominadas por professores “esquerdistas” que se dedicariam mais a doutrinar do que a ensinar. Por essa via, a ideia serve como bode expiatório, que transfere para as opções ideológicas dos professores as falhas referentes à qualidade do sistema escolar. Se crianças e jovens saem com formação precária das escolas, isso se deveria ao trabalho ideologicamente enviesado do professor, não a outros fatores. É uma bobagem.

Não se discute com seriedade o problema da crise da educação escolar, nem as falhas do sistema, nem a má formação dos professores, nem a má vontade dos estudantes com um ensino que, para muitos deles, tem pouca relação com a vida prática e os desafios do presente, que não seduz nem convida a maior dedicação escolar.

Escolas não são máquinas de trituração de cérebros, acionadas por professores que querem fazer com que suas opções ideológicas, culturais ou comportamentais prevaleçam no ensino que ministram.

Há algo de verdade na acusação de que se faz “doutrinação” nas escolas? Pode ser, mas com certeza é muito pouco, casos isolados que certamente se devem à formação precária dos professores envolvidos, a falhas dos concursos de acesso, à falta de supervisão e controle pedagógico, à inexperiência. Não há nem sequer como saber o que é “doutrinação” e o que não é.

O movimento “Escola sem partido” vem patrocinando propostas regressistas, como a que institucionaliza o ensino de religião nas grades curriculares públicas. É algo que contraria o espírito laico e republicano da escola e que congestiona ainda mais os conteúdos a serem ministrados. Cria novos problemas e nenhuma solução, até porque estreita a ideia mesma de religião, reduzindo-a ao cristianismo, sem acatar qualquer diversidade.

Não faz sentido achar que, no mundo atual, com tanta informação disponível e tanta inquietação cultural, os jovens irão seguir como manada os professores. É muito mais provável que eles os questionem, pois assim é a dinâmica de uma escola, especialmente quando se vai galgando a escada que leva ao ensino superior.

Um professor de esquerda, gay ou de direita não tem poder para fazer a cabeça dos estudantes. Pode impressioná-los e influenciá-los se forem bons professores, se forem admirados pelos alunos, se conseguirem estabelecer com eles uma relação de respeito e diálogo. Nada disso tem a ver com opções ideológicas, mas com postura e seriedade.

Um professor de esquerda pode ser tão excelente ou tão medíocre quanto um de direita. Um e outro somente exercerão alguma liderança intelectual se forem bons, se conseguirem se fazer respeitar, se seu prestígio vier das aulas que ministram, dos textos que publicam, da atitude que adotam perante os alunos.

Os estudantes – mesmo os do ensino fundamental – não são coitadinhos indefesos. Têm suas próprias agendas, seus interesses, suas “formas de luta”. Sabem pensar e reagir, têm famílias por trás que os influenciam, são modelados muito mais pela TV e pela internet, pelas redes, do que pelos professores.

Como a vida ficou muito “identitária”, pode ser que alguns professores sejam levados pelo impulso da auto-expressão e exagerem na manifestação de suas orientações e preferências.  Com grande probabilidade, serão rapidamente localizados e deslegitimados pelos estudantes, mesmo que continuem a dar aulas.

Os grupos que impulsionam a ideia da “Escola sem partido” querem defender a tese de que a escola deve informar e a família, formar. É uma confusão só. Preocupam-se com as aulas de orientação sexual, vendo-as como situações em que os estudantes são pressionados a embaralhar suas relações com o gênero e a sexualidade, além de incentivá-los a antecipar a vida sexual. Não dá para levar a sério algo assim. Aulas de orientação sexual são preciosas para que crianças e jovens sejam apresentadas ao complexo universo das relações entre gêneros e orientações, saibam se defender de pedófilos e estupradores, compreendam os conflitos entre papai e mamãe, adotem medidas de higiene e prevenção para quando se iniciarem nas práticas sexuais, percebam que sexo e amor não são a mesma coisa embora possam ser integrados.

Se formos para o ensino superior, a situação fica ainda mais aberrante. Faculdades e universidades são escolas de adultos, ou quase-adultos. Estão integradas por pessoas que sabem pensar, criticar, escolher. Os estudantes são ativos personagens desse universo: não seguem passivamente seus professores e, ao contrário, são extremamente críticos a eles. Destacam quase sempre seus defeitos e imperfeições – seu autoritarismo, sua displicência, sua ignorância, sua falta de didática, suas aulas aborrecidas e sem criatividade. Muitas vezes têm razão.

Professores não são infalíveis. Há bons e maus, os talentosos e os medíocres, os dinâmicos e os cansados da guerra. Há também os “doutrinadores”, aqueles que acreditam ser sua obrigação marcar posição política o tempo todo, que selecionam a bibliografia em função da biografia dos autores, que organizam cursos “mobilizadores”, que avaliam os alunos conforme seu histórico de atuação política, que só se dispõem a discutir temas que integram sua bagagem ideológica. Tais professores são militantes, mais que docentes. Formam uma reduzida minoria, tanto pela direita quanto pela esquerda. E não são particularmente adorados pelos estudantes.

O projeto “Escola sem partido” legislará no vazio: não funcionará simplesmente porque não pode funcionar, estando na contramão da vida e das práticas educacionais. Não tem como ser aplicado. Trata-se de uma fake new, um factoide, que espalha poeira para desviar a atenção do fundamental. Ou será quem alguém acredita na eficácia de um cartaz estabelecendo regras de conduta para os professores?

A proposta destina-se a agitar e a intimidar. Seus defensores tentam aproveitar todas as situações para desfraldar a bandeira. Estão mobilizados, dentro e fora das escolas.  Sua intenção é polarizar e dividir os ambientes escolares, jogando a direita contra a esquerda, alunos contra professores, estigmatizando uns e outros, gerando pânico e insegurança. Fará carga sobre os professores e estudantes, ameaçando-os com um controle ideológico que dificilmente poderá ser exercido, mas que perturba e atrapalha, cerceando a liberdade de pensamento. Sua meta é desorganizar o ambiente escolar e desencadear uma sistemática de censura e perseguição, cujas vítimas serão os professores, os estudantes e suas respectivas famílias. O mote é “combater a esquerda e o comunismo” em nome do combate à “ideologia”, expressão que é utilizada de forma unilateral, como se a direita não tivesse ideologia.

Ativa-se, assim, uma guerra ideológica desprovida de sentido e consistência.

O melhor é deixar a caravana passar. Não aceitar os termos em que ela se apoia. Recusar as provocações e fazer com que o cotidiano escolar, com tudo o que tem de criatividade e diálogo, prevaleça sobre a insensatez. Empenhar-se pela qualidade do ensino e pela neutralização das diferentes formas de militantismo.

Não há porque deixar o pânico se alastrar. Não há, a rigor, contra o quê “resistir”. Radicalizar e promover o confronto não ajudará a que as nuvens se dissipem. Sigamos pela estrada da inteligência, da ética docente, da valorização do ensino em si, da responsabilidade. Crianças e jovens merecem isso. A agenda da escola é muito maior, mais estratégica, muito mais desafiadora.

O mundo atual é complexo e não pode ser encaixado em compartimentos estanques. Se queremos uma nação de cidadãos, a “família” não pode deter a exclusividade da formação. Há que haver instâncias coletivas que eduquem para além da transmissão de informações, instâncias que formem cidadãos e construam um imaginário comum, com direitos e deveres para todos. A missão da escola não é só informar, ainda que deva fazer isso também. Toda informação, como se sabe, sempre contém um esforço de formação e quanto mais isso for equilibrado, melhor para todos. É na escola que tal equilíbrio pode frutificar.