A guerra da vacina

A guerra da vacina

Disputa Dória-Bolsonaro não impede o fortalecimento do Programa Nacional de Imunização

Marco Aurélio Nogueira

18 de janeiro de 2021 | 12h16

Foto Peia S. Dias

A semana começa com novidades importantes e traz consigo duas dimensões igualmente complicadas. Uma tem a ver com a disputa Doria-Bolsonaro, que poderá deixar destroços pelo caminho e atravancar o processo da vacinação, além de inflamar mais um pouco as tensões políticas. Outra é a vacinação em si mesma, cuja execução sofrerá com a falta de doses e com o desafio logístico propriamente dito, cobrir toda a população em um prazo o mais curto possível.

A primeira dimensão não tem desfecho claro. A temperatura subiu muito, com a derrota do governo federal e com suas primeiras reações, destinadas não só a pregar em Doria a pecha de marqueteiro como a postular o principal protagonismo na obtenção da Coronavac, o que é uma mentira deslavada. A resposta do governador manteve o tom, deixando claro que a vacina do Butantan foi uma vitória contra os negacionistas e a favor da vida e da verdade, um “Dia V”. Foi no fígado do bolsonarismo. A rispidez arrogante com que Pazuello se comportou na entrevista coletiva de domingo, 17, à tarde deixou evidente o quanto a derrota foi sentida.

Caberá aos políticos, com seus partidos, definir como proceder diante do conflito, que, ao contrário do que se diz, não antecipa a disputa eleitoral de 2022. O fato de um ser adversário do outro não autoriza a que sejam vistos como candidatos que se enfrentarão nas eleições presidenciais. Muita água rolará, mesmo que Doria tenha se fortalecido com a vitória conquistada.

Há opções em aberto. Moderadores poderão entrar em cena para esfriar o confronto, alegando, antes de tudo, a prioridade estratégica e humanitária da vacinação: quanto menos ruído político, mais tranquilidade técnica para o processo. Afinal, esse não é um confronto que preencha todo o campo das disputas políticas atuais ou vindouras. O desgaste de Bolsonaro poderá ser explorado por outras vias, a começar da articulação de uma consistente frente oposicionista, que fale a língua do povo e dos interesses nacionais. Dela poderá nascer o impulso que falta para se por na mesa a questão do impeachment, que também é emergencial.

Quanto à vacinação, o momento é de fortalecimento do Programa Nacional de Imunização e da experiência acumulada pelos especialistas brasileiros na sua gestão. Uma concentração de esforços será de extraordinária ajuda, seja para acelerar a produção interna dos imunizantes (algo que depende de fornecedores externos, portanto, de relações comerciais ampliadas), seja para incrementar a logística da vacinação e mantê-la sob controle rigoroso, algo indispensável quando se considera que se trabalhará com duas vacinas distintas que exigirão duas doses cada uma.

Outra frente passa pela comunicação e pela organização de uma campanha pública de vacinação que esclareça a população e a imunize contra o negacionismo localizado. A oferta de informação qualificada será decisiva para que a população dê sua contribuição. Como o momento é crítico e o vírus está fora de controle, os cuidados terão de ser mantidos e redobrados (máscara, higiene, distanciamento, redução da circulação).

O último fim de semana trouxe luz para um País que vem sofrendo e se angustiando com a proliferação do vírus. O otimismo ali gerado pode ser usado para dar ritmo e consistência ao processo de vacinação. Servirá, também, para dar direção às oposições democráticas, ajudando-as a encontrar um rumo programático e operacional. O Brasil agradecerá.

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