A farsa como estratégia golpista

A farsa como estratégia golpista

Ao propor a suspensão do uso de máscaras por vacinados, o presidente deseja causar confusão, acelerar o caos social e, por essa via, facilitar a expansão do vírus e o continuísmo

Marco Aurélio Nogueira

11 de junho de 2021 | 11h17

Foto Peia S. Dias

Não dá para atribuir somente à já provada ignorância do presidente a sua declaração de que pedirá ao Ministério da Saúde estudos para desobrigar as pessoas vacinadas de usar máscaras.

A ignorância existe, evidentemente. O presidente a exibe com orgulho, dia após dia, demonstrando não ter a mínima noção de processos de transmissão viral ou da adoção de procedimentos sanitários coletivos e medidas cautelares de proteção. Sua atitude negacionista, de menosprezo e bazófia é constante desde o início do governo e da pandemia. Não há porque se surpreender com a reiteração dessa postura.

Mas a ignorância presidencial é condicionada. Oculta algo bem diferente. A intenção explícita é causar confusão, bagunçar o coreto, acelerar o caos social e, por essa via, facilitar a expansão do vírus, indiferente à morte de mais algumas vidas. O estado pandêmico é o cenário ideal para um governo interessado em desarmar as instituições, corroer o espírito público e reforçar uma imagem de “mito” todo-poderoso. A farsa está no âmago de sua estratégia.

O espantoso é que exista uma claque sempre pronta a aplaudi-lo, seguidores boçais de um personagem tosco.

O presidente age com perversão assumida. Mente sem constrangimento, provoca sem temor às consequências. É um demolidor do bom senso, da delicadeza, da responsabilidade cívica. A farsa permanente é sua arma de combate, com a qual vai ferindo a dignidade do cargo, infernizando a política, envergonhando a Nação e assentando os tijolos para seus planos continuístas e golpistas.

Sua estratégia está claríssima, exposta à luz do dia, a cada momento sendo reiterada, impunemente. Ela está cobrando um alto preço desde 2018, com o País se inviabilizando e a população sendo largada à própria sorte, manipulada grosseira e maldosamente.

O ministro da Saúde, chamado de “o tal do Queiroga” pelo presidente, é a humilhação personificada. Difícil encontrar outros exemplos de tamanha subserviência e de apego a um cargo que não lhe dá autonomia e lhe concede, se tanto, um brilhareco de latão. É uma vergonha para os médicos brasileiros e para a vida pública nacional que um ministro diga, de cara limpa, que “recebe com satisfação os bons conselhos do presidente, que está muito feliz com o ritmo da vacinação”. Rasteja perante aquele que manda, sem qualquer empatia com os que sofrem as consequências das atitudes desvairadas de um governo negacionista.

Enquanto isso, a democracia sangra, devorada por dentro, em sua alma institucional e em seus valores. Quanto mais tardar a reação — que só pode ser a da unidade dos democratas, de mãos dadas com o que há de sociedade civil –, pior ficará.

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