A fantasia política que falta à “terceira via”

Além de não terem uma "narrativa" para chegar aos eleitores, os que desejam superar a polarização Lula vs Bolsonaro se dividem com facilidade

Marco Aurélio Nogueira

15 de outubro de 2021 | 16h45

William Waack, em sua coluna do dia 14/10 no Estadão, observou que a “terceira via” precisa de um “sonho” que a impulsione e aumente suas chances na disputa eleitoral de 2022. Para ele, o problema do “centro” é mais de conteúdo do que de espaço eleitoral.

Waack está certo. Reitera o que tem sido dito e escrito por diversos analistas, que vem registrando a vacuidade programática e doutrinária da “terceira via”. Eu mesmo escrevi a esse respeito meses atrás, quando enfatizei que uma “terceira via” precisa de ideias.

A impressão que se tem hoje é que os personagens que desejam cavar uma estaca na polarização Lula vs. Bolsonaro acreditam que a solução está na celebração de acordos – públicos ou de bastidores – de tipo partidário e regional. O nome ideal da “terceira via” viria por decantação, na hora certa. Todas as demais questões seriam resolvidas a partir de então.

É uma ideia pragmática, não programática. Precisamente por isso, não convence e nem chega aos eleitores, que são, salvo melhor juízo, seres que precisam de sinalizações claras do que se pretende fazer com a Presidência da República. Eleitores são pragmáticos, mas não se movem sem que lhes seja oferecida uma “fantasia política”, uma “imaginação que indique uma vida melhor, mais vantajosa. Candidatos devem mostrar que são confiáveis e capacitados para realizar ao menos parte das expectativas e esperanças da população.

Disputas políticas são sempre disputas pelo imaginário popular.  E não são ganhas por candidatos mergulhados em grutas, que falam em termos genéricos ou não apresentam nada de concreto para todos: para o demos coletivo, a cidadania política. Candidatos identitários, concentrados em agendas tópicas e simbólicas voltadas para grupos específicos, somente têm viabilidade em eleições legislativas.

Deve-se ao historiador norte-americano Mark Lilla a observação de que movimentos vitoriosos dependem da colocação em prática de uma “dispensação política”, uma prescrição pedagógica, uma espécie de catecismo que agrega e ordena um “conjunto de sentimentos e percepções que conferem força psicológica a princípios e argumentos”. Só assim se consegue  atingir os corações e mentes do eleitorado. Donald Trump se elegeu porque conseguiu apresentar isso e não foi confrontado por uma dispensação oposta, democrática. No Brasil, Bolsonaro fez o mesmo, ainda que sua “dispensação” tenha sido sempre fraca e caótica.

A falta de fantasia é por certo apenas um dos problemas daqueles que pregam a “terceira via”. Além de não terem uma “dispensação” competitiva, eles estão se dividindo com enorme facilidade. A cada dia surge um novo candidato presidencial falando em ocupar um lugar ao sol. Poucos deles parecem dispostos a abrir mão de suas candidaturas em favor de um nome que some mais e seja mais viável eleitoralmente. Se a fila dos interessados continuar a crescer, chegaremos em 2022 com uma poeira de candidatos que terminará por cegar os eleitores.

Onde há muitos em conflito, pode não haver nenhum em condições de vencer. A derrota, no caso, não seria dos candidatos, mas da sociedade, da população, que se veria forçada a aceitar o resultado dos votos depositados em urnas que não refletiriam suas expectativas possíveis. O País ficaria parado ou iria ainda mais para trás.

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