A face triste do País

O fracasso do ensino superior é só a ponta do sistema, que guincha e estremece de cima a baixo.

Marco Aurélio Nogueira

13 de dezembro de 2019 | 10h54

Pesquisa do INEP recentemente divulgada aponta que só 2% das faculdades brasileiras são bem avaliadas. Os dados são de 2018.

Das 2.052 escolas de ensino superior, somente 42 obtiveram conceito mais alto. Entre os cursos, que são cerca de 38 mil no País, só 149 passaram na prova.

Avaliações educacionais são sempre complicadas, por serem complexas e porque os critérios em que se baseiam costumam ser escorregadios. O País é muito grande, o volume a ser avaliado é enorme, há muitas formas de “escapar” dos avaliadores. Mas não há porque menosprezá-las, ao contrário. Elas são fundamentais.

Os dados ora divulgados indicam que há uma terra arrasada na educação superior. Estamos estagnados, andando para trás. O processo reflete o descaso com que tem sido tratado o ensino fundamental e as opções de política educacional feitas ao longo do tempo. Os equívocos se acumulam e terminam por dizimar intelectualmente uma gigantesca parcela da população: os jovens. Está aí o PISA para quem quiser ver. O fracasso do ensino superior é só a ponta do sistema, que guincha e estremece de cima a baixo.

Falta estratégia, visão de Estado, sustentada por aquilo que costumamos chamar de “projeto nacional”, uma ideia em torno da qual mobilizar a sociedade. O problema vem de longe, e vai se agravando com o passar dos anos, ao sabor do entra-e-sai de governos e ministros, sem que nenhuma força política decida sacrificar seus planos eleitorais particulares para privilegiar uma causa universal cujas políticas têm o condão de inventar ou reinventar o País.

É urgente que a sociedade civil e os partidos mais responsáveis ponham o guizo no gato e passem a processar criticamente o efeito-FIES e o abandono político da educação básica. Não haverá chance de progresso (material, social, cultural) enquanto não se enfrentar o tema com seriedade.

Não há facilidades na área. Inexiste um modelo pronto e acabado para ser aplicado, o caminho será descoberto ao caminhar, mediante mobilização da inteligência técnica, dos intelectuais, dos professores e das famílias. Ninguém tem uma varinha de condão para executar sua magia. Nada substituirá o trabalho duro, sistemático, que não sofra interrupções e descontinuidade. Uma obra de gerações.

Mas é evidente que quanto mais tempo se perder mantendo o MEC nas mãos de um despreparado grosseiro e irascível como Weintraub, pior será. Ontem, o ministro voltou a fuzilar “a esquerda, os monopolistas e a mídia podre” para se auto-elogiar e se defender das críticas, que, a essa altura, são generalizadas. É muita performance e muita batalha ideológica para zero de entrega.

O futuro passa pela educação, como todo mundo sabe e vive a repetir. Se o País não se cuidar e não tomar as devidas providências, assistirá sem perceber que o século XXI já passou.

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