A encruzilhada de Haddad

A encruzilhada de Haddad

Para avançar e chegar ao segundo turno, Haddad precisa da sombra de Lula, mas para vencer as eleições precisa ir além do PT

Marco Aurélio Nogueira

14 Setembro 2018 | 12h43

Oficializado como candidato presidencial do PT, Fernando Haddad tem uma encruzilhada à sua frente.

Pela estrada da direita, mais confortável mas não isenta de riscos, precisa seguir à risca a estratégia definida por Lula e pela direção do partido. Isso significa manter a santificação do ex-presidente e, em consequência, subalternizar Haddad, obrigando-o a se apresentar como uma emulação de Lula, um “representante” nomeado para carregar pelo país a “tocha” repassada a ele em Curitiba.

Pela estrada da esquerda, instável mas mais promissora, precisa honrar sua condição pessoal de quadro político diferenciado, um intelectual com ideias próprias e uma biografia importante. Essa é a estrada na qual Haddad poderá desempenhar o papel de renovador, um desbravador disposto a abrir diálogos e negociações construtivas tanto com o que está à direita do PT como com o amplo campo das esquerdas, que não se resumem nem se subordinam ao PT.

A primeira estrada tende a ser dominante, especialmente no atual momento da corrida eleitoral, já que impulsiona a candidatura petista e a impregna de forte simbolismo, com evidente apelo popular. Haddad necessita disso como luz e oxigênio, pois é desconhecido da população e tem pouca experiência em campanhas políticas vitoriosas. De pouco adiantarão as advertências que lhe forem feitas de que, ao assim proceder, correrá o risco de se apagar como liderança.

Haddad, portanto, não pode submergir na estratégia de saturar a propaganda com a figura santificada de Lula. Antes de tudo, porque a estratégia pode levar a um imaginário falsificado que, ao não gerar os efeitos esperados, produzirá decepção e raiva, voltando-se contra o próprio PT. E, depois, porque, caso funcione e dê certo, a estratégia tenderá a esvaziar o lado mais forte da candidatura petista, aquele no qual Haddad se solta de seu criador, torna-se maior do que ele e se projeta como um estadista em condições de governar com autonomia decisória e de reconstruir  a união nacional, o Estado, a política brasileira, a imagem petista, as esquerdas.

Seu desafio, portanto, será encontrar um equilíbrio delicado e difícil, atuando em um ambiente tenso e tóxico, pressionado pelas alas mais religiosas do PT, pelos ataques eleitorais dos adversários e pela descrença de parte da população, que não o vê com estatura suficiente para manter Lula sob controle e governar o País.

No curto prazo, Haddad deverá crescer nas sondagens eleitorais, embalado pela dramatização de sua própria entronização e pela narrativa do “golpe”.

O problema estará no médio prazo, quando a poeira assentar e os adversários ajustarem a mira. Nesse ponto da curva, sua campanha terá de apresenta-lo como um personagem à altura do complicado momento nacional, como um representante do povo e da sociedade, não de um ex-presidente cujas mãos não estão inteiramente limpas.

Em termos estritamente eleitorais, o dilema pode ser traduzido da seguinte maneira: para avançar e chegar ao segundo turno, Haddad precisa da sombra de Lula, mas para vencer as eleições precisa daquilo que está além do PT.

A gravidade da encruzilhada em que se encontra é que toda a operação poderá não funcionar e servir de plataforma para a eleição daquele que o PT deveria considerar seu maior adversário.

Ciro Gomes, com sagacidade, tocou no ponto: “Bolsonaro é o cabra marcado para perder a eleição no segundo turno, se a gente não cometer nenhuma imprudência”.

A outra parte do dilema é que Haddad terá de “acalmar” os mercados, os banqueiros e o eleitorado mais ao centro, buscando seduzi-los com um discurso de moderação e pragmatismo, como fez quando foi prefeito de São Paulo. Nessa manobra, poderá irritar os setores duros do PT e desagradar os eleitores lulistas, cujos ouvidos somente assimilam palavras contundentes contra as políticas dos “golpistas”.

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