A boiada do “centrão”

Política é dinamismo, nuvens que se deslocam repentinamente. O apoio do "centrão" pode impulsionar Alckmin. Mas o estrago na parte substantiva terá de ser calculado

Marco Aurélio Nogueira

20 Julho 2018 | 17h10

A anunciada adesão dos partidos do “centrão” à candidatura de Geraldo Alckmin, salvo melhor juízo, é essencialmente contábil, aritmética: agrega alguns minutos a mais ao tempo de rádio e TV, roubando esse mesmo tempo de outros candidatos que também cortejavam as siglas. Não deixa de ser um fato novo e importante.

Em termos políticos, porém, a coisa é bem mais complicada. Não se passou um cheque em branco e almoço grátis só na casa da mamma, e olhe lá.

Não há qualquer certeza de que o apoio do “centrão” trará mais eleitores a Alckmin. Pode mesmo funcionar em sentido oposto. A aposta de que mais tempo de propaganda gera automaticamente mais votos deve ser sempre feita com um ponto de interrogação à frente. Ainda mais hoje, que nem TV direito as pessoas assistem.

Em contrapartida, fica-se com a percepção de que Alckmin armou para si próprio uma arapuca. Obrigou-se a fazer mais concessões programáticas e operacionais durante a campanha, por exemplo. Se for eleito, terá de entregar preciosos cargos de 1º e 2º escalão, que serão postos num cesto de difícil gestão racional ou realista. Seu governo poderá ficar refém de uma banda podre do Congresso Nacional e poderá até mesmo ser asfixiado por ela.

Os jornais dão conta de que, para os políticos do “centrão”, tudo está sendo amarrado e colado para ser levado à prática a partir de janeiro de 2019. A deixa é dada pela ideia de “repartição do poder”, que no fundo nada mais significa do que o controle do poder pelo bloco dos que se coligarem agora, com direito a simplesmente tudo: dos ministérios e das diretorias de empresas à presidência da Câmara e do Senado.

Se vai dar certo, é outra questão.

Chama atenção o fato de que o desfecho do processo se deveu a Valdemar Costa Neto (PR), um dos campeões nacionais do fisiologismo, e implicou a defenestração do coordenador da campanha de Alckmin (Marconi Perilo) e a indicação do vice-presidente na chapa tucana, para cujo cargo foi oferecido o nome do empresário Josué Gomes.

Jogo sendo jogado.

Política é dinamismo, nuvens que se movem e se deslocam repentinamente. Pode ser que a anunciada articulação seja mesmo benéfica a Alckmin e lhe dê o impulso de que necessita. Ele está jogando com as regras prevalecentes na política brasileira. E conseguiu uma vitória, ao amarrar a noiva, que se oferecia, como sempre, para todos os demais pretendentes.

Para alguém que enfrenta dificuldades e tem mostrado, até agora, baixo poder de persuasão e convencimento, não deixa de ser algo para comemorar.

Mas o estrago na parte substantiva do jogo terá de ser incluído nos cálculos. Alckmin precisará dar nó em pingo d’água para se apresentar como propenso a renovar as práticas políticas e inovar em termos gerenciais. E terá de descobrir um modo de pelo menos “disciplinar” a boiada que lhe será entregue caso vença as eleições.

Sem isso, poderá até governar, mas terá de arquivar eventuais planos racionalizadores e de inovação que tem tentado colar à sua imagem.