A beleza da democracia

A beleza da democracia

O eleitor, como se carregasse o futuro nas mãos, tem nelas a possibilidade de interferir no governo da sociedade em que vive

Marco Aurélio Nogueira

26 de novembro de 2020 | 18h14

Foto Peia S. Dias

 

Eleições são processos difíceis, trabalhosos, desgastantes. Sempre. São invariavelmente tensas quando os candidatos que delas participam se engalfinham e se enroscam na reta final.

É a beleza da instituição chamada democracia eleitoral. O eleitor, como se carregasse o futuro nas mãos, tem nelas a possibilidade de interferir de fato no governo da sociedade em que vive, seja ela um ente estadual, federal ou municipal. Acredita-se, aliás, que quanto mais comprimido é o espaço em disputa  — uma cidade, não uma nação –, mais se pode sentir a real influência do eleitorado. Ao apertar dois botões na urna eletrônica, ele imprime  suas digitais na vida coletiva e no governo que se iniciará.

Ao vencedor, muita coisa, até mesmo as batatas, ou os abacaxis. Governar uma cidade como São Paulo, por exemplo, é mais ônus do que bônus. Exige muito, a cobrança é constante e implacável, feita por 10 milhões de pessoas que mastigam o cotidiano urbano, com suas agruras. Uns muito mais do que outros, evidente, pois a desigualdade é uma marca da cidade, ao lado da injustiça, da exclusão, do barulho, da perda de tempo, do desemprego, do massacre que é ir ao trabalho. Hoje, há os medos vários, da pandemia, do assalto, do atropelamento, da discriminação.

Um prefeito recebe tudo isso no peito.

Urnas falam muitas coisas, mas não têm como falar tudo. Há ruídos intermediários, que travam a comunicação. Os candidatos anunciam compromissos e fazem promessas, o eleitor sabe que parte delas é para inglês ver. Se tiver empenho e  informação, porém, pode separar o joio do trigo, verificar com cuidado o que não passa de anúncios eleitorais e o que é de fato uma oportunidade real, algo que se torna palpável por estar inscrito numa trajetória, numa biografia, em alguma realização. O currículo de um candidato a prefeito não é feito de ideias e valores nobres, mas de possibilidades efetivas, de coisas pés no chão, que podem de fato ser feitas.

Eleitores são também apetitosos, de certo modo “egoístas”: sabem que a farinha é pouca e querem seu pirão primeiro. Pensam no seu bairro antes que na cidade, na sua rua antes que na recuperação do centro, no transporte que utiliza, na escola dos filhos mais que na educação, nas escolhas corretas mais que no formato da escolha, se um mutirão ou um “orçamento participativo”. Ninguém como eles sabe o que foi feito e o que poderá ser.

Em épocas tormentosas, como as atuais, há excesso de tudo: promessas, informações, números, fake news, boatos, prognósticos, ameaças, acusações. O eleitor recebe tudo isso no peito, processa do jeito que pode, com os amigos, os familiares, os vizinhos. Por incrível que pareça, o eleitor busca agir racionalmente, procura não perder o que já conseguiu: um pássaro nas mãos vale mais do que dois voando. É o que dá aos incumbentes, aos que buscam se reeleger, algum tipo de vantagem. Mas o exercício do cargo também desgasta, gera más avaliações, costuma ser explorado pelos adversários. O “palácio” de onde governa o prefeito é, no fundo, transparente e tem telhado de vidro.

No próximo domingo será selado o destino de uma das eleições mais disputadas dos últimos anos em São Paulo. O desfecho está em aberto, por mais que as últimas pesquisas sinalizem alguma tendência. Para os candidatos, serão horas de trabalho duro e angústia, de esforços para convencer os indecisos e tentar mudar o voto dos decididos. Para os eleitores, a expectativa.

O bom, para todos, é que a disputa está correndo sem baixarias explícitas. Também conforta saber que a vida seguirá, que nada irá terminar ou começar de forma totalmente diferente. Daqui a quatro anos novas oportunidades se abrirão.

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